A quem estiver lendo este blog como pesquisa para uma futura
viagem ao Atacama, vale dizer que este meu comentário reflete uma experiência
totalmente pessoal, pois o passeio é considerado como um dos mais interessantes
aqui na região. Inclusive, aqui no hostal em que estamos, há vários hóspedes que o adoraram.
Não há como negar que o fenômeno é interessantíssimo e, pra
quem vai devidamente preparado (tanto em roupas, quanto em espírito), se
deslumbra com a visão dos vapores sendo expelidos com do solo com pressão, em meio ao cenário
de areia, neve e sal que ambienta esta terra. No entanto, pra alguém como eu, o
passeio foi muito desgastante.
Quando digo “alguém como eu”, refiro-me a um probleminha que tenho. Posso resumi-lo dizendo que sinto
frio antes de todo mundo e sinto muito mais frio do que todo mundo. Portanto, quando
me disseram que os Geiseres Del Tatio era um passeio em que se sofria com as
baixas temperaturas, tratei de me cuidar.
Vesti 2 meias-calças
de lã, 2 calças térmicas e uma calça de veludo. Pra parte de cima, foram 1
blusa térmica, uma blusa de malha com mangas compridas, 3 suéteres de lã com
gola rulê, 1 casaco de lã de alpaca e um anorak. Para os pés, além das
meias-calças de lã, usei também uma meia térmica e uma meia de lã de alpaca
comprada justamente para a ocasião. Na cabeça, foi uma faixa de lã para as
orelhas, um gorro de lã, mais o gorro do próprio casaco de lã de alpaca, além
do anorak por cima de tudo. Para as mãos, luvas térmicas e luvas de couro com revestimento. Além disso, alcei também meus tênis cano alto, que são feitos
de um material técnico para trilha e foram comprados pra esta viagem. Ou seja,
ninguém pode dizer que não fui precavida!
Pois bem, acordamos às 3:15 da manhã, pois o ônibus nos
buscaria às 4 horas. Até aí, nem vejo tanto problema. Sou super partidária de esforços
extra em viagens que tenham como recompensa uma experiência diferente. E a
razão que se tinha para este horário era super válida. Segundo as agências, é
preciso chegar no local ainda com o sol escondido. Assim se presenciaria o
fenômeno em seu horário mais intenso.
O problema é que a falta do sol mais a subida na altitude foram
deixando o ônibus cada vez mais gelado. Fiquei conferindo o termômetro do
painel e, quando ele começou a apontar 5 graus, eu já estava tiritando de frio
sob todas aquelas camadas de tecidos supostamente adequados para aquecimento e
mais uma manta térmica que pegamos emprestado do hostal.
Ao chegarmos no local, sinalizaram que estava fazendo 8
graus negativos. Eu me lembro de ter pego 14 graus negativos em Bariloche, mas,
na época, eu vestia roupas para a NEVE, Deus do Céu! Por que esse povo não
aluga esse tipo de vestimenta pra esse passeio. Ao menos para brasileiros! OK,
ao menos para cariocas! OK, ao menos para MIM, então!
Saí do ônibus já congelada, mas tentei ao máximo manter a classe e acompanhar respeitosamente
as explicações do nosso guia Jaime. Ele mostrou diferentes tipos de gêiseres:
aqueles que só expeliam vapor, aqueles que expeliam vapor e água, aqueles que
faziam pocinhas d´água e tudo o mais. No entanto, a partir da terceira frase, eu só
conseguia pensar em quando iria sentir os dedos dos meus pés novamente.
Depois do passeio, ainda fiquei firme do lado de fora do ônibus, tomando um
leite com chocolate, sanduíche e ovos cozidos no vapor dos gêiseres. Talvez, se
eu tivesse feito como as meninas, que tomaram o desayuno no ônibus, eu tivesse
conseguido aproveitar mais o passeio. Mas fato é que eu havia chegado no limite
do meu perrengômetro. Acabado o lanche, entrei correndo no ônibus e lá fiquei esfregando os dedos dos pés,
tentando retomar a circulação dos pobres durante um bom tempo.
Quando chegamos às piscinas térmicas, eu já estava no auge
do meu mau humor. Ainda consegui pensar que, se tivesse uma tesoura ou uma
faca, cortaria a ponta das meias-calças pra poder mergulhar aquilo que um dia
havia sido pés na água quente. Mas como eu não tinha esses acessórios “super
fáceis” de encontrar no deserto, fiquei remoendo minha falta de planejamento
junto com minha pré-hipotermia.
Quem entrou na água parecia estar se divertindo muito. Eram
mais homens do que mulheres, que são naturalmente mais friorentas, mas havia
algumas guerreiras que se aventuraram a aparecer de biquíni ou maiô. Confesso que fiquei
com uma invejinha branca do equilíbrio térmico daqueles organismos mutantes.
De onde estávamos, era possível ver os gêiseres espirrando
água e vapor das entranhas da Terra, ainda bem de perto. Eram tão ou ainda mais
lindos do que na hora em que havíamos chegado, com a diferença de que havia
sol, luz e, consequentemente, aquele lindo céu azul atacamenho. Não sei a
duração do fenômeno é inconstante e é preciso chegar àquele horário pra
garantir sua visão, mas fato é que, naquele momento, todo o esforço parecia sem sentido e eu só queria saber de ir embora.
Chegamos de volta ao Campo Base Hostal em torno do meio-dia. Quando entramos, várias pessoas
perguntaram o que eu havia achado do passeio e quase dourei a pílula, até pra
tentar melhorar a coisa na minha cabeça. Mas preferi assumir minha frescura e
dizer que não gostei.
Perdona, gêiseres, mas prefiro baixar suas fotos da internet
e vê-las debaixo do meu edredom!
Ri muito!!
ResponderExcluirMas como sou das suas...
Dica anotada.
Gêiseres chilenos só por foto debaixo do edredon!
:))
Continue aproveitando, amiga!