Para nossa surpresa, uma vez que curtimos uma noite de
Sábado estrelada, o Domingo amanheceu chuvoso. Como não estávamos interessados
em andar na chuva, nós nos rendemos à preguiça e levantamos no limite do
horário do café da manhã. Quando descemos, constatamos que só havia uma mesa
posta para o desayuno que ainda não
tinha sido mexida, de onde concluímos termos sido os últimos acordar.
Felizmente, ainda havia muitas medialunas, que nos fartamos de comer com dulce de leche, na mistura mais deliciosamente calórica da viagem.
Ah, também comi morangos e kiwi pra aliviar um pouco a minha consciência (mas
não a balança).
Como o sinal wifi não ia até o quarto, aproveitamos a manhã
de “folga” pra atualizar no blog o post que eu já havia escrito sobre o passeio
a Punta del Este, no qual o Eduardo fez entusiasmadas contribuições
pra tornar ainda mais ácido o parágrafo sobre os brasileiros. Depois, ficamos
cochilando e lendo no quarto, torcendo, sem muitas esperanças (nem empenho),
pra que o clima melhorasse até a hora do almoço.
Por volta de 14h, já não chovia mais e tivemos que
espreguiçar muito pra não ceder à tentação de curtir aquele bode dominical até
mais tarde. Demos uma breve volta em torno da praça onde ficava a antiga casa
da autoridade municipal de Colonia, que nos pareceu reunir os restaurantes mais
simpáticos. Acabamos decidindo pelo Anjo Preto e fomos os últimos a sermos
servidos, pois, 15 minutos depois que fizemos o pedido, outros candidatos a
clientes foram avisados de que a cozinha havia sido fechada até 18h.
Almocei uma belíssima salada Anjo Preto, composta de folhas,
lascas de parmesão e peras, acompanhada de uma parrilla de chorizo. O Eduardo pediu um Lomo com molho de queijos. Na falta de nossa amiga Patricia, fomos
de Pilsen, que se não tinha nada de especial, também não fazia feio.
Como sentamos do lado de fora, a garçonete poucos-sorrisos-mas-com-eficiência-uruguai-style
vinha de tempos em tempos perguntar-nos se estava “todo bien, chicos”. E, sim,
estávamos de férias, portanto, estava tudo ótimo!
Terminado o almoço, a chuva havia se decidido a ir embora de
Colonia, provavelmente com os argentinos, que começavam a retornar em massa a Buenos
Aires. Caminhamos pela cidade, vendo os carros antigos e fomos em busca da
sobremesa.
Lembrávamos de que, no
dia anterior, próximo ao muro, havíamos visto uma outra loja de sorvetes artesanales e resolvemos quebrar a
fidelidade ao Freddo Helados, mas não ao nosso sabor preferido, dulce de leche Tentación.
Andamos pelo muro da cidade, onde algumas pessoas e seus
cachorrinhos caminhavam e também algumas crianças. Registramos imagens bonitas
das margens do rio da Prata e da vegetação com árvores ribeirinhas de raízes
enormes à mostra.
Saímos da cidade velha e andamos um pouco pela General
Rivera e as calles “modernas” de
Colonia del Sacramento.
O tempo começava a firmar de verdade e decidimos visitar o
que foi um dia o complexo turístico Real de São Carlos, mencionado por Carmem
durante a visita guiada. Ele ficava a cerca de 5km do centro histórico de
Colonia que podiam até mesmo ser percorridos a pé, pela rambla que acompanhava as diversas praias de rio. Decidimos fazer
uso do celtinha alugado e seguir pelo caminho de dentro, conferindo, assim, a
cara da cidade que não era o centro. Como a ideia era depois voltarmos pela rambla, teríamos uma visão completa.
Considero a história desse complexo um pouco melancólica,
pois, mesmo que o projeto girasse em torno das touradas, que é um evento que
abomino, tudo aconteceu no início do século XX, quando a percepção sobre esse
tipo de espetáculo era outra.
A Plaza de Toros,
portanto, seria a atração principal desse conjunto que reuniria também um hotel
cassino, uma quadra de pelota basca e
um circuito de corrida de cavalos. A iniciativa foi de um imigrante croata, chegado
a Buenos Aires com apenas 16 anos, chamado Nicolás Mihanovich, e que lá fez sua
fortuna, em carreira ligada à marinha mercante argentina.
Nicolás Mihanovich
Fonte: Wikipedia
Foram dois golpes seguidos que encerraram a curta carreira
do Complexo turístico. Primeiro, dois anos após a inauguração da arena, as
touradas foram proibidas no Uruguai, fazendo com que o espaço passasse a
abrigar outros tipos de espetáculo, mas sem tanto apelo a grandes públicos ou
frequência tão viável. O segundo e fatal golpe foi dado pela Argentina. Carmem
não explicou bem o porquê e se eu fosse continuar a pesquisa na internet, não
iria publicar este post nunca, mas pouco
tempo depois, os hermanos entenderam
que seus interesses estavam sendo feridos. Foi então que, o país vizinho e
principal cliente começou a dificultar o acesso a San Carlos. Foram aplicados
impostos altos pela travessia e, assim, o empreendimento foi sendo inviabilizado
economicamente, até encerrar as atividades por completo.
Toda essa explicação havia sido dada por Carmen no dia do
passeio por Colonia, mas só tomei dimensão do que deveria ter sido o projeto
quando chegamos às ruínas da Plaza de Toros. O impressionante esqueleto de
metal se revelava por baixo das arquibancadas e dos arcos em estilo oriental, por
onde se via profundas rachaduras e diversos desmoronamentos. Os muitos cartazes ao redor da estrutura confirmavam a informação de Carmem, de que a
entrada era proibida, dado o risco de seu colapso. No entanto, não se prestando
muita atenção nos ferros carcomidos e montes de pedras amontoadas, era possível
imaginar as grandiosas expectativas depositadas naquele estádio. Mais de 100
anos depois, havia se transformado num monumento decadente de um destino que
nunca se cumpriu.
Vimos na placa indicativa do local que aquela arena havia
sido construída para uma capacidade máxima de 8 mil pessoas. A partir dessa
única informação, já se pode presumir o tamanho do feito pois, se em 2013, a
baixa densidade populacional uruguaia nos impressionava, o que dizer no início
do século XX, quando tudo aquilo foi idealizado!
Caminhamos cerca de 100 metros até chegarmos ao prédio do
Ex-Hotel Real San Carlos, construído para servir de hotel provisório, enquanto
o grande hotel cassino não ficasse pronto, feito que jamais chegou a ser
iniciado. Felizmente, em 2003, a restauração do edifício foi possível graças à
iniciativa de uma comunidade de Valencia, na Espanha, e, com isso, foi possível
a instalação de uma universidade naquele local.
Demos mais uma volta na triste arena moribunda e fomos em
direção a um pequeno museu que conservava os vagões dos trenzinhos que
transportavam os ricos turistas e suas bem trajadas senhoras até bem próximo ao
hotel. Juntos de nós, havia alguns turistas russos que também não puderam
entrar nos vagões, por já passar de 18h e o lugar já estar fechado.
Pegamos novamente o carro até o Frontón, outra construção
que por ser bem menos exótica, passaria por nada mais do que um ginásio
abandonado. Seu projeto consistia em abrigar partidas de pelota basca que,
aliado ao circuito para corridas de cavalos, deveriam compor as opções de atrações
esportivas do Complexo Real San Carlos.
Conforme planejado, voltamos pela Rambla, onde brilhava a um sol firme, mas agradavelmente ameno,
pois já passava das 6 horas da tarde.
... e depois seguimos mais um pouco, observando as muitas
pessoas que aproveitavam aquele fim de tarde delicioso. A maior parte era de
jovens, sentados nos bancos, em cadeiras de praia ou na própria calçada. Depois
da rambla de Montevidéu, nem era mais novidade pra nós a cena de 1 a cada 2
uruguaios (ou argentinos, neste caso) bebericando seu chimarrão, mas achamos
curioso o fato de absolutamente todos porem-se virados para a rua e não para o
rio, que certamente oferecia um cenário mais bonito.
Diante daquele fim de tarde lindíssimo, fizemos nossa
despedida de Colonia em grande estilo, revisitando os cantinhos que
consideramos mais bonitos e admirando as paisagens agora sob uma luz dourada,
que tornava as cores quentes e as silhuetas ainda mais interessantes.
Apesar da boa claridade, o sol já ia bem baixo, criando
sombras compridíssimas, que nos impressionaram e me lembraram um pouco algumas
imagens que registrei no Atacama.
Já chegava perto do por do sol e escolhemos um bom local de
observação, engrossando a plateia que se acomodava nas pedras e muros às
margens do rio de la Plata.
Depois do lindo espetáculo natural, no caminho para a
pousada, vimos um restaurante que nos interessou bastante, o Marlo. Vários
selinhos indicavam uma boa aceitação no Trip Advisor e decidimos conferir a
indicação no site, quando retornássemos à Posada del Virrey pra pegar alguns
agasalhos leves.
Confirmada a fama positiva, voltamos ao Marlo como primeiros
fregueses do jantar. A cidade já estava vazia naquele domingo à noite,
confirmando sua característica de destino de fim-de-semana para os hermanos,
que já deviam estar repousando no outro lado do rio.
O gerente nos acomodou numa romântica mesa ao lado da
janela, onde fizemos nossa última e deliciosa refeição em Colonia. Começamos
com uma empanada e depois eu parti para o famoso Ojo de Bife (ou algo assim),
acompanhado de abóboras caramelizadas grelhadas. O aspecto diz por si...
O Eduardo optou por um filé à milanesa com batatas fritas
que veio numa porção absolutamente gigantesca, derrotando seu apetite pouco
depois da metade consumida.
Fomos de vinho Don Pascual, da Juanicó, que visitaríamos no
dia seguinte e arrematamos com uma grappa.
Uma linda lua novamente brindou nosso retorno à pousada, de
maneira que demos uma última passadinha no porto antigo para uma despedida.
No dia seguinte, rumo a Montevidéu novamente!
Hasta la vista, bela Colonia!