segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sexto dia - 27 de maio: Geiseres Del Tatio

Uma vez, um amigo comentou que achar curioso que no meu blog anterior, o Meu Véio Mundo, eu falasse de minhas viagens como se não houvesse qualquer perrengue. Fiquei refletindo na época, pensando se isso acontecia porque eu não dava importância às experiências negativas ou se simplesmente não queria registrá-las. Concluí que se trata de um pouco dos dois, mas, no caso do Mi Alma Viajera, vale contar sobre um programinha em que fui com 5 calças, 7 casacos, 4 meias, um cocar, um arco e uma flecha: os Gêiseres Del Tatio.

A quem estiver lendo este blog como pesquisa para uma futura viagem ao Atacama, vale dizer que este meu comentário reflete uma experiência totalmente pessoal, pois o passeio é considerado como um dos mais interessantes aqui na região. Inclusive, aqui no hostal em que estamos, há vários hóspedes que o adoraram.

Não há como negar que o fenômeno é interessantíssimo e, pra quem vai devidamente preparado (tanto em roupas, quanto em espírito), se deslumbra com a visão dos vapores sendo expelidos com do solo com pressão, em meio ao cenário de areia, neve e sal que ambienta esta terra. No entanto, pra alguém como eu, o passeio foi muito desgastante.

Quando digo “alguém como eu”, refiro-me a um probleminha que tenho. Posso resumi-lo dizendo que sinto frio antes de todo mundo e sinto muito mais frio do que todo mundo. Portanto, quando me disseram que os Geiseres Del Tatio era um passeio em que se sofria com as baixas temperaturas, tratei de me cuidar.

 Vesti 2 meias-calças de lã, 2 calças térmicas e uma calça de veludo. Pra parte de cima, foram 1 blusa térmica, uma blusa de malha com mangas compridas, 3 suéteres de lã com gola rulê, 1 casaco de lã de alpaca e um anorak. Para os pés, além das meias-calças de lã, usei também uma meia térmica e uma meia de lã de alpaca comprada justamente para a ocasião. Na cabeça, foi uma faixa de lã para as orelhas, um gorro de lã, mais o gorro do próprio casaco de lã de alpaca, além do anorak por cima de tudo. Para as mãos, luvas térmicas e luvas de couro com revestimento. Além disso, alcei também meus tênis cano alto, que são feitos de um material técnico para trilha e foram comprados pra esta viagem. Ou seja, ninguém pode dizer que não fui precavida!

Pois bem, acordamos às 3:15 da manhã, pois o ônibus nos buscaria às 4 horas. Até aí, nem vejo tanto problema. Sou super partidária de esforços extra em viagens que tenham como recompensa uma experiência diferente. E a razão que se tinha para este horário era super válida. Segundo as agências, é preciso chegar no local ainda com o sol escondido. Assim se presenciaria o fenômeno em seu horário mais intenso.

O problema é que a falta do sol mais a subida na altitude foram deixando o ônibus cada vez mais gelado. Fiquei conferindo o termômetro do painel e, quando ele começou a apontar 5 graus, eu já estava tiritando de frio sob todas aquelas camadas de tecidos supostamente adequados para aquecimento e mais uma manta térmica que pegamos emprestado do hostal.

Ao chegarmos no local, sinalizaram que estava fazendo 8 graus negativos. Eu me lembro de ter pego 14 graus negativos em Bariloche, mas, na época, eu vestia roupas para a NEVE, Deus do Céu! Por que esse povo não aluga esse tipo de vestimenta pra esse passeio. Ao menos para brasileiros! OK, ao menos para cariocas! OK, ao menos para MIM, então!

Saí do ônibus já congelada, mas tentei ao máximo manter a classe e acompanhar respeitosamente as explicações do nosso guia Jaime. Ele mostrou diferentes tipos de gêiseres: aqueles que só expeliam vapor, aqueles que expeliam vapor e água, aqueles que faziam pocinhas d´água e tudo o mais. No entanto, a partir da terceira frase, eu só conseguia pensar em quando iria sentir os dedos dos meus pés novamente. Depois do passeio, ainda fiquei firme do lado de fora do ônibus, tomando um leite com chocolate, sanduíche e ovos cozidos no vapor dos gêiseres. Talvez, se eu tivesse feito como as meninas, que tomaram o desayuno no ônibus, eu tivesse conseguido aproveitar mais o passeio. Mas fato é que eu havia chegado no limite do meu perrengômetro. Acabado o lanche, entrei correndo no ônibus e lá fiquei esfregando os dedos dos pés, tentando retomar a circulação dos pobres durante um bom tempo.

Quando chegamos às piscinas térmicas, eu já estava no auge do meu mau humor. Ainda consegui pensar que, se tivesse uma tesoura ou uma faca, cortaria a ponta das meias-calças pra poder mergulhar aquilo que um dia havia sido pés na água quente. Mas como eu não tinha esses acessórios “super fáceis” de encontrar no deserto, fiquei remoendo minha falta de planejamento junto com minha pré-hipotermia.

Quem entrou na água parecia estar se divertindo muito. Eram mais homens do que mulheres, que são naturalmente mais friorentas, mas havia algumas guerreiras que se aventuraram a aparecer de biquíni ou maiô. Confesso que fiquei com uma invejinha branca do equilíbrio térmico daqueles organismos mutantes.

De onde estávamos, era possível ver os gêiseres espirrando água e vapor das entranhas da Terra, ainda bem de perto. Eram tão ou ainda mais lindos do que na hora em que havíamos chegado, com a diferença de que havia sol, luz e, consequentemente, aquele lindo céu azul atacamenho. Não sei a duração do fenômeno é inconstante e é preciso chegar àquele horário pra garantir sua visão, mas fato é que, naquele momento, todo o esforço parecia sem sentido e eu só queria saber de ir embora.

Chegamos de volta ao Campo Base Hostal em torno do meio-dia. Quando entramos, várias pessoas perguntaram o que eu havia achado do passeio e quase dourei a pílula, até pra tentar melhorar a coisa na minha cabeça. Mas preferi assumir minha frescura e dizer que não gostei.

Perdona, gêiseres, mas prefiro baixar suas fotos da internet e vê-las debaixo do meu edredom!







Um comentário:

  1. Ri muito!!

    Mas como sou das suas...
    Dica anotada.
    Gêiseres chilenos só por foto debaixo do edredon!

    :))

    Continue aproveitando, amiga!

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