domingo, 2 de novembro de 2014

Dia 21/10: Volta a Montevidéu e visita à vinícola Juanicó

Mais de um ano depois, posto o relato do último dia da viagem ao Uruguai. Depois de amanhã, espero começar os posts da viagem ao Chile, que faremos em novembro de 2014 e, ao dar uma olhada no Mi Alma Viajera, fiquei com vergonha de ter deixado só esse diazinho de fora. Não será um relato de muita qualidade, mas segue o propósito principal dos meus blogs de viagem, que é registrar o momento.

Acordamos sem pressa na nossa última manhã em Colonia del Sacramento e constatamos ser o nosso o único quarto ocupado da pousada. Tratava-se de uma segunda-feira e todos os outros hóspedes haviam deixado o local na tarde do Domingo.

Pegamos nosso carrinho alugado e fomos rumo a Montevidéu, de onde seguiríamos para a vinícola Juanicó, pois um almoço e uma visita guiada nos esperavam. Hummmm!

Havíamos pensado em fazer esse trecho de ida e volta à Juanicó de táxi e, quando chegamos ao hotel, descobrimos ser uma péssima escolha. Mea culpa total na falta de planejamento pra esse finzinho de viagem!

Decidimos, então, devolver o carro no dia seguinte para podermos usá-lo nesse último passeio. O problema seria que o Eduardo não teria como aproveitar tanto as degustações de vinho, mas ainda assim achamos ser a melhor alternativa.

Seguimos as instruções do fiel GPS e, após cerca de 40 minutos de estrada, chegamos na entrada da vinícola. No caminho, passamos por uma escola infantil muito bonitinha e ficamos observando um pouco as crianças com seus uniformes engomadinhos e num estilo bem diferente dos que estamos acostumados a ver no Brasil, brincando no pátio do colégio.


Daí a pouco, nos deparamos com a entrada para a propriedade.


Logo de primeira, percebemos que mais do que vinhos e gastronomia, o que mais nos encantaria seria a estrutura do lugar, que já na entrada recepcionava os visitantes com um lindo caminho entre enormes árvores, cercado pelos vinhedos.




Novamente, por se tratar de uma segunda-feira, seríamos os únicos visitantes do dia e tivemos o privilégio de almoçar na sala principal, de frente para uma enorme janela com vista para uma árvore majestosa, seguida das plantações de videiras.



Vista por fora, a casa não transparecia a beleza e requinte da decoração interna, que mesmo seguindo um estilo mais rústico, totalmente apropriado a uma sede de fazenda, havia sido cuidadosamente decorada.














No salão bem ao lado, havia o espaço onde se devia servir o almoço quando a vinícola estivesse sendo visitada por muitos turistas. Apesar de também ser um lugar simpático, não se comparava ao charme da sala principal. Isso nos deixou ainda mais felizes pela escolha da segunda-feira para aquele passeio exclusivíssimo!



Ficamos a maior parte do tempo sozinhos, o que foi ótimo, pois rapaz que nos recepcionou era pedante até dizer chega. Contou um pouco da história do lugar, quase sem olhar pra nós e com um certo ar de enfadonho que me incomodou profundamente.

Uma vez que o tratamento se estabeleceu dentro dos limites da cortesia e seguimos vendo a figura apenas nas vezes em que os pratos foram trocados, continuamos felizes no nosso almoço especial. De quebra, quando o sujeito saía de cena, nós nos divertíamos com a nossa piadinha preferida, imitando o protocolo dos "enochatos", balançando os copos pelas hastes com observações de "Veja que lágrima, meu amor!", cafungando o vinho e exclamando depois "Que bouquet!".



Tivemos entrada, primeiro, segundo prato e sobremesa, cada um harmonizado com um vinho diferente. Ou seja, eu estava que nem pinto no lixo e o Eduardo, que não é tão fã da bebida, também gostou bastante.











Terminada a refeição / degustação, o sujeito "cara-de-coquinho" nos levou pra conhecer as adegas, que ocupavam dois pavimentos abaixo. A primeira, com outra área lindamente decorada para degustações...







Enquanto que o patamar mais baixo armazenava os barris...




Compramos três módicas garrafinhas e, antes de ir embora, fiz questão de tirar uma foto sentada na frente da árvore estupenda que apreciamos durante todo o almoço.


 Depois desse fechamento de ouro, só nos restava retornar a Montevidéu para a última noite de mais uma viagem inesquecível!

domingo, 24 de novembro de 2013

20 de outubro: último dia em Colonia

Para nossa surpresa, uma vez que curtimos uma noite de Sábado estrelada, o Domingo amanheceu chuvoso. Como não estávamos interessados em andar na chuva, nós nos rendemos à preguiça e levantamos no limite do horário do café da manhã. Quando descemos, constatamos que só havia uma mesa posta para o desayuno que ainda não tinha sido mexida, de onde concluímos termos sido os últimos acordar.

Felizmente, ainda havia muitas medialunas, que nos fartamos de comer com dulce de leche, na mistura mais deliciosamente calórica da viagem. Ah, também comi morangos e kiwi pra aliviar um pouco a minha consciência (mas não a balança).

Como o sinal wifi não ia até o quarto, aproveitamos a manhã de “folga” pra atualizar no blog o post que eu já havia escrito sobre o passeio a Punta del Este, no qual o Eduardo fez entusiasmadas contribuições pra tornar ainda mais ácido o parágrafo sobre os brasileiros. Depois, ficamos cochilando e lendo no quarto, torcendo, sem muitas esperanças (nem empenho), pra que o clima melhorasse até a hora do almoço.

Por volta de 14h, já não chovia mais e tivemos que espreguiçar muito pra não ceder à tentação de curtir aquele bode dominical até mais tarde. Demos uma breve volta em torno da praça onde ficava a antiga casa da autoridade municipal de Colonia, que nos pareceu reunir os restaurantes mais simpáticos. Acabamos decidindo pelo Anjo Preto e fomos os últimos a sermos servidos, pois, 15 minutos depois que fizemos o pedido, outros candidatos a clientes foram avisados de que a cozinha havia sido fechada até 18h.




Almocei uma belíssima salada Anjo Preto, composta de folhas, lascas de parmesão e peras, acompanhada de uma parrilla de chorizo. O Eduardo pediu um Lomo com molho de queijos. Na falta de nossa amiga Patricia, fomos de Pilsen, que se não tinha nada de especial, também não fazia feio.




Como sentamos do lado de fora, a garçonete poucos-sorrisos-mas-com-eficiência-uruguai-style vinha de tempos em tempos perguntar-nos se estava “todo bien, chicos”. E, sim, estávamos de férias, portanto, estava tudo ótimo!

Terminado o almoço, a chuva havia se decidido a ir embora de Colonia, provavelmente com os argentinos, que começavam a retornar em massa a Buenos Aires. Caminhamos pela cidade, vendo os carros antigos e fomos em busca da sobremesa.


 Lembrávamos de que, no dia anterior, próximo ao muro, havíamos visto uma outra loja de sorvetes artesanales e resolvemos quebrar a fidelidade ao Freddo Helados, mas não ao nosso sabor preferido, dulce de leche Tentación.

Andamos pelo muro da cidade, onde algumas pessoas e seus cachorrinhos caminhavam e também algumas crianças. Registramos imagens bonitas das margens do rio da Prata e da vegetação com árvores ribeirinhas de raízes enormes à mostra.







Saímos da cidade velha e andamos um pouco pela General Rivera e as calles “modernas” de Colonia del Sacramento.


O tempo começava a firmar de verdade e decidimos visitar o que foi um dia o complexo turístico Real de São Carlos, mencionado por Carmem durante a visita guiada. Ele ficava a cerca de 5km do centro histórico de Colonia que podiam até mesmo ser percorridos a pé, pela rambla que acompanhava as diversas praias de rio. Decidimos fazer uso do celtinha alugado e seguir pelo caminho de dentro, conferindo, assim, a cara da cidade que não era o centro. Como a ideia era depois voltarmos pela rambla, teríamos uma visão completa.

Considero a história desse complexo um pouco melancólica, pois, mesmo que o projeto girasse em torno das touradas, que é um evento que abomino, tudo aconteceu no início do século XX, quando a percepção sobre esse tipo de espetáculo era outra.

A Plaza de Toros, portanto, seria a atração principal desse conjunto que reuniria também um hotel cassino, uma quadra de pelota basca e um circuito de corrida de cavalos. A iniciativa foi de um imigrante croata, chegado a Buenos Aires com apenas 16 anos, chamado Nicolás Mihanovich, e que lá fez sua fortuna, em carreira ligada à marinha mercante argentina.

Nicolás Mihanovich
Fonte: Wikipedia

Foram dois golpes seguidos que encerraram a curta carreira do Complexo turístico. Primeiro, dois anos após a inauguração da arena, as touradas foram proibidas no Uruguai, fazendo com que o espaço passasse a abrigar outros tipos de espetáculo, mas sem tanto apelo a grandes públicos ou frequência tão viável. O segundo e fatal golpe foi dado pela Argentina. Carmem não explicou bem o porquê e se eu fosse continuar a pesquisa na internet, não iria publicar este post nunca, mas pouco tempo depois, os hermanos entenderam que seus interesses estavam sendo feridos. Foi então que, o país vizinho e principal cliente começou a dificultar o acesso a San Carlos. Foram aplicados impostos altos pela travessia e, assim, o empreendimento foi sendo inviabilizado economicamente, até encerrar as atividades por completo.

Toda essa explicação havia sido dada por Carmen no dia do passeio por Colonia, mas só tomei dimensão do que deveria ter sido o projeto quando chegamos às ruínas da Plaza de Toros. O impressionante esqueleto de metal se revelava por baixo das arquibancadas e dos arcos em estilo oriental, por onde se via profundas rachaduras e diversos desmoronamentos. Os muitos cartazes ao redor da estrutura confirmavam a informação de Carmem, de que a entrada era proibida, dado o risco de seu colapso. No entanto, não se prestando muita atenção nos ferros carcomidos e montes de pedras amontoadas, era possível imaginar as grandiosas expectativas depositadas naquele estádio. Mais de 100 anos depois, havia se transformado num monumento decadente de um destino que nunca se cumpriu.










Vimos na placa indicativa do local que aquela arena havia sido construída para uma capacidade máxima de 8 mil pessoas. A partir dessa única informação, já se pode presumir o tamanho do feito pois, se em 2013, a baixa densidade populacional uruguaia nos impressionava, o que dizer no início do século XX, quando tudo aquilo foi idealizado!


Caminhamos cerca de 100 metros até chegarmos ao prédio do Ex-Hotel Real San Carlos, construído para servir de hotel provisório, enquanto o grande hotel cassino não ficasse pronto, feito que jamais chegou a ser iniciado. Felizmente, em 2003, a restauração do edifício foi possível graças à iniciativa de uma comunidade de Valencia, na Espanha, e, com isso, foi possível a instalação de uma universidade naquele local.





Demos mais uma volta na triste arena moribunda e fomos em direção a um pequeno museu que conservava os vagões dos trenzinhos que transportavam os ricos turistas e suas bem trajadas senhoras até bem próximo ao hotel. Juntos de nós, havia alguns turistas russos que também não puderam entrar nos vagões, por já passar de 18h e o lugar já estar fechado.






Pegamos novamente o carro até o Frontón, outra construção que por ser bem menos exótica, passaria por nada mais do que um ginásio abandonado. Seu projeto consistia em abrigar partidas de pelota basca que, aliado ao circuito para corridas de cavalos, deveriam compor as opções de atrações esportivas do Complexo Real San Carlos.



Conforme planejado, voltamos pela Rambla, onde brilhava a um sol firme, mas agradavelmente ameno, pois já passava das 6 horas da tarde.

Paramos um pouco em uma das praias pra tirarmos algumas fotos...





... e depois seguimos mais um pouco, observando as muitas pessoas que aproveitavam aquele fim de tarde delicioso. A maior parte era de jovens, sentados nos bancos, em cadeiras de praia ou na própria calçada. Depois da rambla de Montevidéu, nem era mais novidade pra nós a cena de 1 a cada 2 uruguaios (ou argentinos, neste caso) bebericando seu chimarrão, mas achamos curioso o fato de absolutamente todos porem-se virados para a rua e não para o rio, que certamente oferecia um cenário mais bonito.




Diante daquele fim de tarde lindíssimo, fizemos nossa despedida de Colonia em grande estilo, revisitando os cantinhos que consideramos mais bonitos e admirando as paisagens agora sob uma luz dourada, que tornava as cores quentes e as silhuetas ainda mais interessantes.












Apesar da boa claridade, o sol já ia bem baixo, criando sombras compridíssimas, que nos impressionaram e me lembraram um pouco algumas imagens que registrei no Atacama.


Já chegava perto do por do sol e escolhemos um bom local de observação, engrossando a plateia que se acomodava nas pedras e muros às margens do rio de la Plata.







Depois do lindo espetáculo natural, no caminho para a pousada, vimos um restaurante que nos interessou bastante, o Marlo. Vários selinhos indicavam uma boa aceitação no Trip Advisor e decidimos conferir a indicação no site, quando retornássemos à Posada del Virrey pra pegar alguns agasalhos leves.
Confirmada a fama positiva, voltamos ao Marlo como primeiros fregueses do jantar. A cidade já estava vazia naquele domingo à noite, confirmando sua característica de destino de fim-de-semana para os hermanos, que já deviam estar repousando no outro lado do rio.



O gerente nos acomodou numa romântica mesa ao lado da janela, onde fizemos nossa última e deliciosa refeição em Colonia. Começamos com uma empanada e depois eu parti para o famoso Ojo de Bife (ou algo assim), acompanhado de abóboras caramelizadas grelhadas. O aspecto diz por si...



O Eduardo optou por um filé à milanesa com batatas fritas que veio numa porção absolutamente gigantesca, derrotando seu apetite pouco depois da metade consumida.

Fomos de vinho Don Pascual, da Juanicó, que visitaríamos no dia seguinte e arrematamos com uma grappa.


Uma linda lua novamente brindou nosso retorno à pousada, de maneira que demos uma última passadinha no porto antigo para uma despedida.


No dia seguinte, rumo a Montevidéu novamente!

Hasta la vista, bela Colonia!