quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dia 19/10: Visita histórica e primeira noite em Colonia

Às 18h05, a Guia Carmen estava na Posada del Virrey. Era uma figura em pessoa: ruiva, olhos claros, baixinha, mas com uma impostação de voz que parecia sugar dela uma força enorme, forçando-a a entortar a boca, numa fala que revelava a arcada dentária até os molares, mas apenas do lado esquerdo, num meio termo entre uma paralisia parcial pós-derrame e um rosnado.

Demorei um pouco a conseguir desligar dos cacoetes de Carmem até conseguir prestar atenção ao que ela dizia, mas felizmente o Eduardo estava atento pra me contar o que eu havia perdido. Aliás, desde a época colegial, sempre foi uma dificuldade pra mim esse tipo de situação, pois tendo a me deixar atrair muito mais pela observação das pessoas do que qualquer conteúdo que esteja sendo exposto. Não acho bonito, mas é assim que eu sou. Fazer o quê, né?

Então, depois de bastante devanear, fazendo paralelos entre as caretas de Carmem e o personagem Harvey Dent (para entender a referência, veja as histórias do Batman) e também depois de conseguir distância do cheiro insuportavelmente doce do shampoo da argentina de cabelo pingando, que cismava de ficar na minha frente, consegui me concentrar na interessante história daquela cidade.

Resumindo bastante, soubemos que Colonia del Sacramento foi fundada pelos portugueses, em 1680, sob o comando do então governador do Rio de Janeiro, Manoel Lobo. O objetivo era expandir territórios na região platina, que era dominada pela Espanha. A cidade foi palco de diversas batalhas entre os imperialistas ibéricos, sendo que, na maior parte do tempo, a colônia foi dos portugueses, até o completo controle espanhol e posterior independência do Uruguai.

O resultado foi uma curiosa mistura de construções desses dois povos, em diferentes momentos de desenvolvimento. A principal característica das casas portuguesas é o material de suas construções, feitas de pedra, além de suas telhas visíveis. As casas espanholas já apresentavam paredes rebocadas que se estendiam para além da linha das telhas, ocultando-as.




Outra diferença interessante pode ser conferida nas calles de Colonia. Ambam eram revestidas por pedras, mas, enquanto as ruas portuguesas eram feitas em forma de “v”, de maneira que a água escoasse pelo centro, as espanholas tinham calçadas e declinavam nas pontas, sendo mais altas no meio, de forma que a água escoasse pelas laterais.

Calçamento português.


Calçamento espanhol.

Carmem nos explicou que as reformas feitas na cidade utilizaram paralelepípedos nas vias, de forma a não destoar do calçamento original, mas, ao mesmo tempo, também tinham por objetivo demonstrar a diferença entre o material original e o reconstruído.


Essa mistura de português, espanhol, antigo e novo também pode ser conferida na igreja de Colonia. Carmem contou que por ser um dos prédios mais altos da cidade, e por estar localizada muito próxima ao muro, sempre era a construção que mais sofria com os tiros de canhão, no momento em que um dos dois povos tentava invadir a cidade. Independentemente de serem espanhóis ou portugueses, ambos os conquistadores eram católicos e tratavam de reconstruir o edifício conforme sua cultura. Assim, a igreja tem partes de pedra e partes de alvenaria, além de outras misturas menos evidentes.



Passamos pelo muro que limita a área verdadeiramente antiga de Colonia del Sacramento. Apenas algumas partes dele se mantêm visíveis e, nos anos 70, foi reconstruído o portão principal que se ligava à parte não fortificada por uma ponte levadiça. Para tanto, foram utilizados, dentro do possível, materiais originais.


Carmem também mencionou um marco importante, embora ainda recente na história da cidade. Ela foi nomeada Patrimônio Natural e Cultural Mundial pela Unesco, em dezembro de 1995.


Esse evento levou Colonia a se tornar um destino turístico relevante no cenário internacional e a cidade passou a receber turistas de todas as partes do mundo e não apenas da Argentina.

A esse respeito, vale também dizer que, mesmo com a grande mudança trazida pelo título da Unesco, os turistas provenientes de Buenos Aires ainda são a grande maioria. A razão é que é possível cruzar, em embarcações, os cerca de 50 km que separam as duas cidades por meio do rio da Prata em pouco menos de 1 hora, quando se leva mais do que o dobro disso em se partindo de Montevidéu.


Terminamos a visita guiada em frente à rua de nossa pousada e próximo ao antigo porto que, segundo Carmem, seria o local mais indicado pra se admirar o lindo por-do-sol de Colonia. Conforme teria sido dito por um conhecido no assunto, o lugar permitiria ver a maior miríade de cores no céu e na água.

Achei que fôssemos ter de disputar a tapa um cantinho no cais, mas nada no Uruguai da baixa estação parecia ser tomado por muita gente, de maneira que sentamos tranquilamente num banco e ficamos, sozinhos, admirando aquela beleza até o fim.


Decididos a jantar num restaurante à altura do charme da cidade, indagamos da recepcionista da Pousada, Claudia, algumas indicações. Ela, que era outra personificação do que eu considerei como leve e constante mau-humor uruguaio, fez uma cara blasé de quem acha não haver lugares ruins pra se comer em Colonia e citou diversos, com uma expressão displicente. Perguntei o que ela achava do Bar de los Suspiros, que ficava na calle com o mesmo nome, dado ao local devido ao fato de ser antes povoado pelas mulheres de vida fácil. (Essa foi outra contribuição de nossa guia Carmem, que comentou a interpretação poética do que se praticava ali com uma cara meia – meia de metade mesmo, pois era só a parte esquerda – jocosa). Claudia finalmente abriu um sorriso, dizendo que aquele era um lugar muito charmoso, especial e que iríamos adorá-lo. Apenas pra não restar dúvida, o Eduardo conferiu as ótimas impressões relatadas no Trip Advisor, com as quais iremos contribuir, muito em breve.

Entrada do Bar de Los Suspiros, 
que já tínhamos adorado no passeio de tarde e 
fotografamos pra registrar, 
ainda sem saber que jantaríamos por lá

A noite era de um clima ameno, céu estrelado e lua cheia, muito linda e cheia. Com menos de 5 minutos de caminhada, estávamos no Bar de los Suspiros. O lugar não era muito grande e praticamente só havia 1 ou 2 mesas disponíveis pra sentarmos. O teto era baixíssimo, com vigas de madeira, que conferiam um aspecto de alcova e obrigavam todos (principalmente o Eduardo) a andar de cabeça baixa.

O cardápio oferecia picadas, que eram tábuas de queijos e frios, além de sopas. Havia também uma carta extensa de vinhos, com opções de vários tipos de uva, produtores e preços. Cada um tinha sua descrição logo abaixo do nome e nos divertimos lendo em voz baixa, mas solene, os textos sobre “os taninos suaves” e as expressões sinestésicas viajantes, como os “vermelhos aveludados”. Algumas brincadeiras sobre “sinto o aroma de pedras molhadas e cavalos suados” depois, resolvemos levar o negócio a sério e escolher um vinho adequado tanto as nossas expectativas, quanto ao nosso orçamento. A solução foi perfeita, com um Tannat chamado Km0, da bodega Familia Irurtia.



Pedimos uma picada com alguns queijos da região, parmesão, presuntos crus, salames, pães e azeitonas. Estava uma delícia e nós, que tínhamos o plano de pedir uma sopinha de cebola ao fim dos belisquetes, nos vimos surpreendentemente satisfeitos. Brindamos àquele excelente jantar com grappa local e licor de café, afinal, nossas expectativas haviam sido finalmente satisfeitas depois daquele fiasco do almoço no Faroles.



O garçom que nos atendeu foi muito simpático, pra desbancar a minha teoria sobre a atitude dos uruguaios em geral. Quando perguntei se o pessoal que trabalhava no Bar de los Suspiros sofria muito com dor na coluna, ele riu, respondendo que apenas nos 3 primeiros dias e apontando pra um outro garçom, bem mais alto do que ele próprio, dizendo ser quem mais padecia. Como esse era calvo, reparei que ele tinha uma cicatriz bem no topo da testa, mas (felizmente) resisti à indiscrição de perguntar se aquela tinha sido obra de um cálculo equivocado na hora de desviar de alguma viga. 

O lugar não aceitava cartões, mas pagamos em reais sem problemas. Aliás, essa é outra particularidade dos estabelecimentos uruguaios. Pode-se pagar em pesos, dólares ou reais, que a conversão é feita na hora, inclusive por meio das máquinas de cartão.

Fomos o penúltimo casal a sair do lugar, que fechava à meia-noite. Resolvemos, então, dar um último passeio pela cidade, admirando a lua, que se exibia esplendorosa por trás das folhagens dos plátanos na pracinha da cidade.



E foi com ela que nos despedimos deste dia incrível. Buenas noches!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dia 19/10: Viagem e chegada em Colonia del Sacramento

Por volta de 10h15 da manhã, chegou nosso carro. Era um Celtinha básico, confortável e funcional, que foi alugado na Hertz, com ajuda de Diego, um brasileiro que trabalhava como atendente no Massini Suites. Tanto ele, quanto Roberta, outra recepcionista do MS, falavam um Português já com sotaque uruguaio, de forma que demoramos um pouco a reconhecer a nacionalidade dos dois. O preço foi super justo e receber o carrinho na porta do apart hotel foi de uma felicidade imensa.

O funcionário da Hertz se chamava Nicholas. Muito gentil e metódico, explicou detalhadamente ao Eduardo as condições e horários da locação, bem como o funcionamento do GPS. Ao pegar os dados do cartão de crédito, utilizou, segundo ele, uma tecnologia tipicamente uruguaia. O papel era colocado por cima do cartão e a parte dura da caneta era passada, decalcando os números no papel carbono. Rindo, ele explicou que assim não havia problema de bateria, sinal de chip ou qualquer inconveniente parecido.

Fiquei observando o Eduardo recebendo as instruções daquele rapaz e procurei entender o que estava me causando estranhamento naquela cena. Ri, percebendo que, de uma maneira tão incomum quanto quem conhece o Eduardo pode imaginar, ele estava parecendo pequenininho ao lado do funcionário da Hertz. É que o sujeito devia ter uns 10 cm a mais do que o 1,94 m do meu namorido. Confirmei depois o palpite de que essa constatação estaria deixando o Eduardo particularmente contente, pois isso sempre acontece quando identifica pessoas mais altas do que ele. Essa sensação de conforto raramente vinha acontecendo até então no Uruguai, onde a estatura média é baixa.

Depois de tudo acertado, subimos um pouquinho a calle Ramón Massini, até um local chamado MCLCalentitas. No dia anterior, quando buscávamos um bom café da manhã nas redondezas do Massini Suites, identificamos essa opção, que trazia uma logomarca em forma de croissant, sugerindo a venda das deliciosas medialunas.

Pedimos duas promoções de café completo, que traziam, cada um, cappuccino ou café cortado, suco de laranja, água mineral, 1 medialuna rellena de queijo com presunto e 2 tostados, também de queijo com presunto e biscoitinhos amanteigados sortidos. Com pães de fabricação própria, o que podia ser conferido numa curiosa espiadinha por trás dos balcões, as medialunas e tostados estavam absolutamente divinos! Basta dizer que eles foram devorados antes mesmo de eu pensar em tirar a tradicional foto.


Confirmamos, pelas atendentes do Calentitas, um perfil típico do serviço uruguaio. Tanto eu, quanto o Eduardo, concordamos que eles são bastante educados, mas, da minha parte, que faço o estilo brasileiro-carente, chamaria esse padrão de um pouco antipático. Já o Eduardo, que não faz tanta questão de calor humano vindo de quem não conhece, considerou-os apenas mais sérios e duros, parecidos com o jeitão dos espanhóis.

Satisfeitos com nosso melhor desayuno, seguimos para a versão road trip de nossa aventura, em direção a Colonia del Sacramento.

Digitamos as coordenadas no GPS e logo percebemos que ele ia nos conduzindo pelas ruas internas de Montevideo, diferentemente da orientação do Diego, que havia nos indicado seguir pela Rambla, até pegarmos as rotas principais. Eu, que sou um desastre como copilota, fiquei meio tensa até chegarmos à rodovia, mas conseguimos alcançá-la sem qualquer dificuldade.

O dia estava bem bonito e curtimos o visual pampeiro das estradas uruguaias. Com exceção de algumas pequenas favelas na saída da área metropolitana, o país manteve a imagem passada anteriormente, com casas simpáticas e dignas, até mesmo pra regiões que eram nitidamente mais pobres.

Com o relevo plano que se pode imaginar em um país que tem foco na criação de gado, as áreas verdes predominavam. Eram eventualmente intercaladas por pequenos e poucos povoados, que não pareciam ir muito além das casas à beira da estrada. Também vimos poucos carros e raríssimos caminhões, o que deve contribuir para o ótimo estado do asfalto. O Eduardo, com sua sutil fobia por multidões, não se cansava de observar que “o Uruguai, decididamente, era um país de uma densidade populacional muito confortável”.
Ao longo dos cerca de 140 Km de estrada, que seguiu absolutamente reta em 90% do percurso, ficamos ouvindo as rádios uruguaias e tentando imitar o sotaque, onde, entre outras particularidades, os “LL” viram algo entre o “X” e o “J”, os “D” são quase engolidos e os “S” viram “R”. Aliás, foi fácil analisar os sotaques, uma vez que os locutores falavam muito mais do que colocavam músicas pra tocar!






Chegamos com facilidade em Colonia em pouco mais de 2 horas de viagem e encontramos a calle de Spaña, onde ficava a Posada del Virrey bem rapidinho. De cara, gostamos da hospedagem, próxima ao antigo porto, com uma linda porta de madeira, recepção simpática, bem decorada, além de (o principal) quartos limpos, confortáveis e charmosos.




Depois de deixarmos as malas e colocarmos uma roupa mais leve, pois o dia estava bastante ensolarado, demos nossa primeira volta pela cidade. Com medo de repetirmos a experiência dos restaurantes fechados, decidimos almoçar logo. Encontramos com facilidade (qualquer coisa é encontrada com facilidade em Colonia, como já se pode perceber) o restaurante que havia sido indicado no guia do Viajante Independente sobre a América do Sul, como um dos locais preferidos dos nativos de Colonia. Chamava-se Púlperia dos de los Faroles e nos serviu pra aprendermos uma lição! A partir de agora, sempre confirmaremos no Trip Advisor uma sugestão de restaurante feita em livros, pois o lugar se revelou totalmente medíocre e nada barato. Não sei se no momento em que o livro foi impresso, o Faroles era mais interessante, mas, comparado com os inúmeros outros locais de custo-benefício infinitamente melhor, no mínimo, nos causou suspeita.

Pedimos uma cerveja Patrícia (até aí não tinha como errar) e um coquetel de camarões ao alho como entrada. Eles estavam numa consistência boa, mas super insossos. 


Depois, o Eduardo pediu um salmão com fritas, enquanto eu um filé com molho de pimenta, também com fritas. A carne uruguaia realmente tem muita qualidade e fica difícil de estragar, mas os sujeitos se esforçaram, com um molho rançoso à base de maisena, que me lembrou do medalhão à piamontese do restaurante Frango Veloz, na Tijuca. Em todo caso, estamos de férias, então, raspa o molhinho pra fora da carne, foca na cerveja (que ao menos é gelada) e vamos ser felizes!



Além da lição, valeu também pelo habilidoso pianista que estava tocando vários tangos. Ao fim da apresentação, ele distribuiu seu CD, que compramos (200 pesos urugaios), quase como um couvert artístico e reconhecimento por ter salvado o almoço.


Demos um último giro de reconhecimento por Colonia e voltamos ao hotel, onde a recepcionista havia nos informado que, às 18h, haveria uma visita guiada gratuita, ao longo dos pontos históricos da cidade.

Ainda havia muitas histórias interessantes pela frente.

domingo, 20 de outubro de 2013

Dia 18/10: Passeio em Punta del Este

Nossa programação inicial era de começarmos nosso passeio em Punta del Este às 11h e, para tanto, teríamos de sair de Montevidéu por volta das 9h. Mas a preguiça foi muita e acabamos só chegando no terminal de Tres Cruces pouco antes das 11h.

As passagens pra Punta não são caras, em torno de 20 pesos uruguaios e bem fáceis de comprar, pois há várias companhias e em horários frequentes. Vimos aquela que oferecia a partida mais próxima, compramos água e alfajores pra um café da manhã improvisado e lá fomos nós.


Estou absurdamente preguiçosa nesta viagem e capotei praticamente durante o percurso todo, sem nem ter tocado no livro que havia levado pra aproveitar o tempo até Punta. Acordei uns 15 minutos antes de chegarmos, com o Eduardo me chamando atenção pras construções de Maldonado, onde era a primeira parada do ônibus.

Chegamos pouco depois das 13h, numa Punta del Este nublada e bastante vazia. Na estação, depois que voltei do banheiro, o Eduardo já tinha em mãos o mapa da cidade e o percurso que faríamos a pé.

Apesar do tempo carregado e do vento, demos sorte de não estar chovendo. Providencialmente, eu estava usando um suéter de lã, mais uma capa e o Eduardo, camisa de mangas compridas e blazer, de maneira que foi possível caminhar por toda a Rambla sem sentir frio algum.


A península é banhada, de um lado, pelo rio da Prata e, do outro, pelo oceano Atlântico, intercalando praias com areia e rochas ao longo da costa. Alguns bairros tinham predominância por casas, que pareciam bastante luxuosas, e o Eduardo observou como os uruguaios, de uma forma geral, não constroem muros altos em suas propriedades. Essa era uma observação que ele já havia feito em Montevidéu, onde a arquitetura exposta das casas conferia um aspecto mais simpático ao visual urbano da cidade. Em Punta, a maior parte dos muros que vimos era baixa, provavelmente para cercar a propriedade e impedir que animais de estimação fugissem ou se perdessem.

Com medo de repetirmos o erro do dia anterior, quando todos os restaurantes em que quisemos ir para o almoço já  estavam fechados, resolvemos fazer dessa a nossa primeira parada. Logo achamos um restaurante que nos havia sido bem indicado, e cuja decoração  - com bons talheres e belo pano de mesa - denotavam se tratar de um local sofisticado, chamado Los de Tere. Tomamos outra Patricia, de entrada, pedi uma tortilla chamada de Moderna e o Eduardo uma hamburguesa de camarões. Ambos muito saborosos. 




De prato principal, eu repeti o pedido dele no Francis de Montevidéu e fui de risoto de camarões. O Eduardo pediu um filé chamado “Había uma vez”, com uma capa crocante que estava divina. Além de uma provinha da carne, herdei a salada de folhas que veio acompanhando o filé. Delícia!



Pra finalizar, tomei o licor de Tannat de sobremesa, enquanto o Eduardo experimentou uma sobremesa de chocolate.

Continuamos o passeio e logo constatamos que não seria possível ver a Punta del Este conhecida como balneário fervilhante de gente e animação, passarela de comparação entre as beldades uruguaias, argentinas, brasileiras e o tanto mais do mundo que vem se bronzear nas areias cisplatinas (ou do Atlântico Sul, dependendo do lado em que a beldade for à praia). Com a baixa estação, a maior parte das casas e apartamentos estava fechada, o que, com o dia cinza e a cidade vazia, deu uma certa impressão de cidade fantasma.



 Não que isso seja propriamente ruim. Nem eu nem o Eduardo estamos afeitos a lugares cheios e ambos apreciamos a paisagem do mar escuro batendo contra as pedras e as faixas de areia desertas de banhistas, tendo apenas um ou outro morador passeando com um cachorro, fazendo exercício ou mesmo pescando. Curtimos muito a caminhada em meio àquela paisagem poética e romântica.






Em todo caso, nossos compatriotas sempre nos lembravam se tratar  o local de um balneário turístico, pois eventualmente cruzávamos com ônibus de excursionistas  brasileiros. Como de costume, desembarcavam nos “points”, que logo eram tomados por homens trajando indefectíveis bermudas e camisetas regata com as marcas grifadas em letras colossais, no melhor estilo Faustão, e, muitas vezes, as legítimas havaianas. Eram acompanhados por suas mulheres com cabelos de cortina, calças legging, tênis, bolsa Prada e óculos Chanel. Ao avistarem Porche ou Ferrari por perto, logo corriam em sua direção, fazendo graça ao tirarem fotos em poses ostensivas e caricaturais feições de dono. Depois, acumulavam-se impacientemente  à porta do ônibus, esperando a vez de subir, tremendo de frio em seus braços cruzados e as mulheres descabeladas, sempre reclamando do efeito do vento.

(Nem preciso dizer que este último parágrafo foi escrito a quatro mãos)

A Rambla é bem cuidada, tendo algumas obras de arte ao longo do percurso, restaurantes sofisticados e diversos deques pra apreciação da vista. Vale o destaque para a âncora do navio inglês Ajax, que participou da Batalha do Rio da Prata, sobre a qual comentei no post anterior e que, nesse monumento, foi chamada de Batalha de Punta del Este. Só achamos curioso o fato de essa âncora ser de um navio inglês, porque tudo o que pesquisamos a respeito disse que nenhuma embarcação inglesa havia afundado.




Paramos em outra filial da sorveteria Freddo pra mais uma prova do helado dulce de leche tentación. No caminho pra rodoviária, entramos num cassino, mas ele só tinha disponíveis as máquinas caça níqueis, pois as mesas de roleta estavam vazias e sem nenhum crupiê. Apostamos 50 pesos num caça níquel com motivos havaianos, que esgotou nossa paciência na metade do jogo e fomos embora.

Ainda tiramos algumas fotos da famosa mão, um dos símbolos de Punta del Este e pegamos o ônibus das 19h pra Montevidéu, onde capotei novamente até chegarmos à região metropolitana.



Chegamos pouco antes das 21h, onde subimos para o shopping que fica na parte superior do terminal de Três Cruces e jantamos no Mc Donald´s.

Deixamos tudo mais ou menos pronto pra sair no dia seguinte, pois, às 10h, estava marcado de chegar o carro que alugaríamos pra viagem até Colonia del Sacramento.


Hasta Luego!