Por volta de 10h15 da manhã, chegou nosso carro. Era um
Celtinha básico, confortável e funcional, que foi alugado na Hertz, com ajuda
de Diego, um brasileiro que trabalhava como atendente no Massini Suites. Tanto
ele, quanto Roberta, outra recepcionista do MS, falavam um Português já com
sotaque uruguaio, de forma que demoramos um pouco a reconhecer a nacionalidade
dos dois. O preço foi super justo e receber o carrinho na porta do apart hotel
foi de uma felicidade imensa.
O funcionário da Hertz se chamava Nicholas. Muito gentil e
metódico, explicou detalhadamente ao Eduardo as condições e horários da
locação, bem como o funcionamento do GPS. Ao pegar os dados do cartão de
crédito, utilizou, segundo ele, uma tecnologia tipicamente uruguaia. O papel era
colocado por cima do cartão e a parte dura da caneta era passada, decalcando os
números no papel carbono. Rindo, ele explicou que assim não havia problema de
bateria, sinal de chip ou qualquer inconveniente parecido.
Fiquei observando o Eduardo recebendo as instruções daquele
rapaz e procurei entender o que estava me causando estranhamento naquela cena.
Ri, percebendo que, de uma maneira tão incomum quanto quem conhece o Eduardo pode
imaginar, ele estava parecendo pequenininho ao lado do funcionário da
Hertz. É que o sujeito devia ter uns 10 cm a mais do que o 1,94 m do meu namorido.
Confirmei depois o palpite de que essa constatação estaria deixando o Eduardo
particularmente contente, pois isso sempre acontece quando identifica pessoas
mais altas do que ele. Essa sensação de conforto raramente
vinha acontecendo até então no Uruguai, onde a estatura média é baixa.
Depois de tudo acertado, subimos um pouquinho a calle Ramón Massini, até um local chamado
MCLCalentitas. No dia anterior, quando
buscávamos um bom café da manhã nas redondezas do Massini Suites, identificamos
essa opção, que trazia uma logomarca em forma de croissant, sugerindo a venda das
deliciosas medialunas.
Pedimos duas promoções de café completo, que traziam, cada
um, cappuccino ou café cortado, suco
de laranja, água mineral, 1 medialuna
rellena de queijo com presunto e 2 tostados,
também de queijo com presunto e biscoitinhos amanteigados sortidos. Com pães de
fabricação própria, o que podia ser conferido numa curiosa espiadinha por trás
dos balcões, as medialunas e tostados estavam absolutamente divinos!
Basta dizer que eles foram devorados antes mesmo de eu pensar em tirar a tradicional foto.
Confirmamos, pelas atendentes do Calentitas, um perfil
típico do serviço uruguaio. Tanto eu, quanto o Eduardo, concordamos que eles
são bastante educados, mas, da minha parte, que faço o estilo
brasileiro-carente, chamaria esse padrão de um pouco antipático. Já o Eduardo, que não faz tanta questão de calor
humano vindo de quem não conhece, considerou-os apenas mais sérios e duros,
parecidos com o jeitão dos espanhóis.
Satisfeitos com nosso melhor desayuno, seguimos para a versão road trip de nossa aventura, em direção a Colonia del Sacramento.
Digitamos as coordenadas no GPS e logo percebemos que ele ia
nos conduzindo pelas ruas internas de Montevideo, diferentemente da orientação
do Diego, que havia nos indicado seguir pela Rambla, até pegarmos as rotas
principais. Eu, que sou um desastre como copilota, fiquei meio tensa até
chegarmos à rodovia, mas conseguimos alcançá-la sem qualquer dificuldade.
O dia estava bem bonito e curtimos o visual pampeiro das
estradas uruguaias. Com exceção de algumas pequenas favelas na saída da área
metropolitana, o país manteve a imagem passada anteriormente, com casas
simpáticas e dignas, até mesmo pra regiões que eram nitidamente mais pobres.
Com o relevo plano que se pode imaginar em um país que tem
foco na criação de gado, as áreas verdes predominavam. Eram eventualmente intercaladas
por pequenos e poucos povoados, que não pareciam ir muito além das casas à
beira da estrada. Também vimos poucos carros e raríssimos caminhões, o que deve
contribuir para o ótimo estado do asfalto. O Eduardo, com sua sutil fobia por
multidões, não se cansava de observar que “o Uruguai, decididamente, era um
país de uma densidade populacional muito confortável”.
Ao longo dos cerca de 140 Km de estrada, que seguiu
absolutamente reta em 90% do percurso, ficamos ouvindo as rádios uruguaias e
tentando imitar o sotaque, onde, entre outras particularidades, os “LL” viram algo
entre o “X” e o “J”, os “D” são quase engolidos e os “S” viram “R”. Aliás, foi
fácil analisar os sotaques, uma vez que os locutores falavam muito mais do que
colocavam músicas pra tocar!
Chegamos com facilidade em Colonia em pouco mais de 2 horas
de viagem e encontramos a calle de
Spaña, onde ficava a Posada del Virrey bem rapidinho. De cara, gostamos da
hospedagem, próxima ao antigo porto, com uma linda porta de madeira, recepção
simpática, bem decorada, além de (o principal) quartos limpos, confortáveis e
charmosos.
Depois de deixarmos as malas e colocarmos uma roupa mais
leve, pois o dia estava bastante ensolarado, demos nossa primeira volta pela
cidade. Com medo de repetirmos a experiência dos restaurantes fechados,
decidimos almoçar logo. Encontramos com facilidade (qualquer coisa é encontrada
com facilidade em Colonia, como já se pode perceber) o restaurante que havia
sido indicado no guia do Viajante Independente sobre a América do Sul, como um
dos locais preferidos dos nativos de Colonia. Chamava-se Púlperia dos de los Faroles e nos
serviu pra aprendermos uma lição! A partir de agora, sempre confirmaremos no
Trip Advisor uma sugestão de restaurante feita em livros, pois o lugar se
revelou totalmente medíocre e nada barato. Não sei se no momento em que o livro
foi impresso, o Faroles era mais interessante, mas, comparado com os inúmeros outros
locais de custo-benefício infinitamente melhor, no mínimo, nos causou suspeita.
Pedimos uma cerveja Patrícia (até aí não tinha como errar) e
um coquetel de camarões ao alho como entrada. Eles estavam numa consistência
boa, mas super insossos.
Depois, o Eduardo pediu um salmão com fritas, enquanto
eu um filé com molho de pimenta, também com fritas. A carne uruguaia realmente
tem muita qualidade e fica difícil de estragar, mas os sujeitos se esforçaram,
com um molho rançoso à base de maisena, que me lembrou do medalhão à piamontese
do restaurante Frango Veloz, na Tijuca. Em todo caso, estamos de férias, então,
raspa o molhinho pra fora da carne, foca na cerveja (que ao menos é gelada) e
vamos ser felizes!
Além da lição, valeu também pelo habilidoso pianista que
estava tocando vários tangos. Ao fim da apresentação, ele distribuiu seu CD,
que compramos (200 pesos urugaios), quase como um couvert artístico e
reconhecimento por ter salvado o almoço.
Demos um último giro de reconhecimento por Colonia e
voltamos ao hotel, onde a recepcionista havia nos informado que, às 18h,
haveria uma visita guiada gratuita, ao longo dos pontos históricos da cidade.
Ainda havia muitas histórias interessantes pela frente.
O dia estava lindo. Vocês estavam lindos. Tudo perfeito!
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