sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Dia 17/10: City tour, emoções no café e jantar no Francis

Levantamos já com a programação, feita no dia anterior, de pegarmos o ônibus turístico pra ter uma noção mais geral da cidade.

Tanto eu, quanto o Eduardo, pensamos que é sempre uma boa opção esse tipo de tour, pois, do contrário, arrisca-se formar uma imagem da cidade restrita aos locais visitados espontaneamente. Conforme o exemplo que ele deu sobre o Rio de Janeiro, de um turista que hospedado em Copacabana e saindo à noite na Lapa, não formaria uma visão representativa da cidade.

Conforme havíamos verificado no centro de informações turísticas perto do Mercado do Porto, o ponto de parada do ônibus mais próximo ao Massini Suites era o Shopping Montevideo. Assim, andamos em direção a ele e, no caminho, passamos numa confiteria pra comprar uns pãezinhos recheados de dulce de leche.
Como chegamos cerca de vinte minutos antes da hora, resolvemos reforçar o desayuno com um heladito. Havia uma filial do Freddo Helados bem em frente à parada. Assim, juntamos, literalmente, a fome com a vontade de comer e provamos nosso primeiro sorvete uruguaio. 

O Eduardo manteve a linha tradicional e pediu o sabor chocolate com avelãs, que trazia avelãs enormes e inteiras num chocolate extremamente saboroso. Eu quis experimentar a prata da casa e fui de sabor “dulce de leche tentación”. Fantástico!!!! Extremamente cremoso e com uns pedacinhos de torrões de açúcar bem pequenos. Quero repetir a dose antes de ir embora porque, até agora, junto com a picanha do Mercado, foi o ponto alto gastronômico da viagem.


Cinco minutos antes do previsto, o ônibus turístico chegou. Corremos e eu terminei meu sorvetinho já na parte de cima, que tinha uma cobertura que nos protegia do sol. Comecei usando os headphones com tradução em Português, mas depois desisti porque aqueles orelhões à la princesa Leia Organa são muito desconfortáveis e, a essas alturas, o Espanhol uruguaio começou a ficar decifrável pra mim.


Começamos pela área da Rambla que já havíamos conhecido no primeiro dia e vimos alguns pontos que não tínhamos percebido antes, como o canhão de um encouraçado alemão, Graf Spee, que afundou no rio de la Plata. Quando chegamos ao hotel, o Eduardo fez a devida pesquisa, pois, segundo ele, “não se pode acumular ignorância” e descobriu a história do navio. Achei tão interessante, que decidi registrar um breve resumo.

Houve uma batalha no Atlântico Sul na II Guerra Mundial, em que o Graf Spee, cuja missão principal era abater navios mercantes, lutou contra embarcações britânicas. Apesar de quase abater um dos navios ingleses, o Graf Spee foi suficientemente avariado para que o comandante achasse necessário aportar em Montevidéu para reparos.

 Graças à neutralidade apresentada pelo Uruguai  na guerra e aos tratados vigentes na época, as autoridades só permitiriam a embarcação em seu porto durante um máximo de 72 horas. Mais do que isso faria com que o Graf Spee fosse apreendido.

Com ordens de Hitler para que não permitisse que o navio caísse nas mãos dos ingleses, que esperavam os alemães no Atlântico para uma batalha final, o comandante Langsdorff tomou a drástica (e muito corajosa, pois salvou centenas de vidas) decisão de afundar seu próprio navio. Ele foi explodido e afundou em chamas, sob os registros da imprensa da época.

Registro do Graf Spee em chamas, no Porto de Montevideo (Fonte: Wikipedia)

Langsdorff.jpg
Hans Wilhelm Langsdorff


Depois de alguns dias, já em Buenos Aires, Langsdorff suicidou-se envolto na bandeira de combate alemã. Foi a maneira que encontrou para provar que sua ação não havia sido fruto de covardia. Nem preciso dizer que a história virou filme e menos ainda de que “A Batalha do Rio Prata”, de 1956, será alugado tão logo voltemos ao Rio.

Continuamos pela Rambla, que foi descrita pelo narrador como “uma obra faraônica”, até o fim e constatamos mais uma vez a quantidade de pessoas que aproveitam as opções de exercício ao ar livre que esse espaço oferece, com um extenso, largo e bem cuidado calçadão, além de muitos parques.


Chegamos na Cidade Velha e paramos no Porto, onde pagamos o passeio e paramos até que uma nova viagem do ônibus ocorresse. Nesse meio tempo, demos um giro rápido pelas redondezas e entramos novamente no Mercado, dessa vez, resistindo ao apelo da aromática parrilla.

Voltamos na hora marcada, e fomos antecedidos por um grupo enorme de uruguaios. Pareciam pertencer a uma escola de jovens e adultos, pois reunia pessoas com aparência bastante humilde e que traziam uns questionários pra responder, como um exercício de fixação, ou trabalho de pesquisa.

Depois de 20 minutos de atraso, nos informaram que o ônibus não estava funcionando. Fomos obrigados a sair e aguardar mais 15 minutos, que era um tempo grande pra quem já estava esperando há 20 e muito curto pra ser aproveitado ao lado de nossa mais nova amiga, a loura Patricia. Decidimos entrar numa galeria de arte, o que nos rendeu um souvenir bem do jeitinho que gostamos. Uma caneca pintada por um artista uruguaio com um motivo nem um pouco com jeito de pega-turista.

Quase perdemos o ônibus por causa da caneca, mas não consegui pedir à atendente pra apressar o processo de embalagem, tamanho era o cuidado da moça. Envolveu umas 5 vezes a caneca em papel bolha, escreveu o nome do artista no cartão e grampeou-o num saquinho colorido, com todo o carinho. Tivemos de correr atrás do ônibus, mas valeu a pena.

Passamos novamente pela Praça da Independência e seus prédios imponentes (em contraste com o favelão citado no post anterior)...




...além de cruzarmos novamente toda a Dezoito de Julho, seus prédios antigos e modernos...


 e suas praças...



Vimos o Estádio de Futebol, onde o Uruguai havia vencido a Argentina 2 dias antes...


 e passamos pelo Palácio onde fica o poder Legislativo.


Fora esses prédios mais especiais, o passeio deu a noção de uma parte bem decadente de Montevidéu, com casas bonitas escondidas atrás de plotters e mais plotters anunciando todo o tipo de produtos e serviços, além de calçadas com bastante lixo. Aliás, já me acostumei a deixar um saquinho plástico na bolsa, uma vez que é uma raridade encontrar uma lata de lixo na cidade.

No entanto, o Eduardo fez uma observação interessante. Apesar de haver áreas mais pobres e decadentes, em momento algum vimos algo que parecesse com uma moradia miserável ou algum tipo de favelização. Mesmo os edifícios mais pobres apresentavam um mínimo de dignidade pras pessoas morarem.

Voltamos pra parte mais bonita da cidade, nos arredores da Rambla e saltamos no Shopping Punta Carretas, cujo interessante prédio havia servido a uma Penitenciária. 


De todos os bairros que vimos, este nos pareceu o mais interessante pra comer, pois, do ônibus, parecia ter a maior variedade de restaurantes charmosos e cafés.

No entanto, já eram quase 16h e os restaurantes estavam todos fechados. Assim, depois de fotografar uma meia-dúzia de portas para minha coleção, voltamos em direção ao Shopping, onde comemos numa franquia de restaurantes italianos.

Tomamos um chopp que, embora gostoso, não me pareceu concorrência a nossa amiga Patricia. O Eduardo pediu uma pizza e eu o famoso Chivito. Pra quem não sabe, o Chivito é uma espécie de X-Tudão de Montevidéu. Tem carne (muito boa), queijo, pancetta, ovo, chili, maionese, azeitona, tomate, alface e é acompanhado de batatas fritas.



Gostosinho, mas absolutamente nada de especial. Montevidéu ainda estava devendo uma refeição memorável que não fosse a picanha, o que acabou acontecendo no jantar que fizemos mais tarde, no Francis. Mas isso eu conto daqui a pouco.

Voltamos em direção ao hotel e resolvemos parar pra um café na Havanna, que é uma filial da loja portenha de alfajores. Pedi um cappuccinno, o Eduardo um café expresso, ambos com alfajores de dulce de leche com chocolate pra acompanhar.


Quando estávamos no meio do lanche, tomamos um susto enorme! Uma moça que descia as escadas em direção ao banheiro, deu um grito e segurou seu filho, puxando-o de maneira que não visse alguma cena a sua frente. Ela correu em direção ao balcão e falou muito rápido, mas deu pra entender que alguém estava ferido e caído na escada.

A partir daí, foi uma confusão danada no café e uma enorme sensação de impotência, pois não estávamos certo do que estava acontecendo e, ao mesmo tempo em que queríamos ajudar, não queríamos atrapalhar quem sabia o que estava ocorrendo e o que podia de fato ser feito.

Um senhor de mais idade desceu pelas escadas aflito, enquanto um homem que parecia o gerente dava ordens para as garçonetes. Perguntamos a uma delas se podíamos ajudar chamando alguém e ela respondeu que já haviam feito isso.

A moça que havia dado o sinal pro que havia acontecido, explicou um pouco melhor, dizendo que se tratava de uma senhora e que estava caída na escada, cheia de sangue na boca e na cabeça. Falou de um jeito que ficamos sem ter certeza se ela tinha caído, se machucado e desmaiado ou se tinha tido algum tipo de ataque, pois ela contava a história rapidinho e depois repetia sem parar que seus filhos haviam visto aquela cena terrível.

No meio daquela confusão, sem saber ao certo quem era o quê da acidentada e o que estava sendo feito, percebemos um menino de uns 11 anos, no máximo, que andava de um lado pro outro na loja. Parecia estar, ao mesmo tempo, constrangido e preocupado. Foi até a beira da escada, voltou e, de repente, ele se escorou na parede, quase desmaiando. Foi acudido por uma outra mulher que estava na cafeteria.
Depois, soubemos que era o neto da pessoa acidentada. Era um menino gordinho, de bochechas rosadas, daquele que tem uma carinha de ser deliciosamente mimado pelos avós. Foi amparado pra se sentar na mesa, onde uma garçonete levou-lhe um copo d´água com gelo e o pobrezinho começou a chorar copiosamente. A garçonete ficou ao lado dele e começou a telefonar, provavelmente, pra chamar alguém que viesse ficar com a criança.

Depois de uns 15 minutos, como a situação parecia entrar no controle e não havia nada que pudéssemos fazer, decidimos pagar e ir embora. No caixa, quisemos ter certeza e perguntamos se a senhora acidentada estava acompanhada, ao nos responderam que sim. Era aquele homem que havia descido as escadas correndo. O Eduardo perguntou também se ela estava acordada, pois a comoção continuava tão grande que começamos a imaginar o pior. Felizmente, a garçonete respondeu positivamente.

Lembramos de um evento parecido em Praga, quando um senhor mais velho e muito gordo simplesmente desabou na nossa frente, na escada de um café. Na ocasião, ao menos, tivemos como ajudar e a esposa dele ficou tão agradecida que nos mandava beijos de longe, quando cruzávamos o olhar com ela, depois, no salão.

Depois do evento dramático, seguimos em direção ao hotel pra descansarmos até o jantar. A ideia era irmos ao restaurante Francis, que ficava em Punta Carretas e foi uma das nossas tentativas infrutíferas do almoço, graças ao horário.

O Eduardo tinha feito algumas pesquisas e ele estava super bem cotado. A sorte é que fizemos reserva, pois, quando chegamos, o lugar estava repleto e havia uma espera.

Pra começar, pedimos um vinho tinto Tannat, da vinícula Juanicó, que vamos visitar na segunda-feira, no retorno de Colonia Del Sacramento e uns camarões assados na lenha. De prato principal, o Eduardo continuou nos camarões, de que pediu risoto. Eu fui de lasanha de cordeiro com espinafre. Ambos estavam absolutamente divinos e em porções generosíssimas, a ponto de nós dois desistirmos antes do fim. Fato inédito, quando se trata de um prato de que gostamos. Tirei foto das duas refeições (o Eduardo já nem morre mais de vergonha, porque já se acostumou e já sabe que será rápido, indolor e sem flash), mas eu tinha deixado o chip no hotel e ficou na memória da máquina, cujo cabo acabei não trazendo.

Não houve espaço pra sobremesa e, depois de um Limoncello, pagamos a (salgadita, mas justita) conta e fomos embora, caindo de sono no táxi.

No dia seguinte, o destino seria Punta del Leste.

Hasta la vista, baby!

Um comentário: