sexta-feira, 1 de junho de 2012

Nono dia - 30 de maio: walking tours mais Salsa e Cumbia

Nosso primeiro desayuno em Santiago foi decepcionante. Apesar de o local reservado para as refeições no Andes Hostel ser super simpático, não se pode dizer o mesmo das atendentes. Perguntei se havia como esquentar mais leite e a moça fez um grunhido mal humorado. Foi a mesma reação quando fui pegar ovo mexido e constatei que havia acabado também. Nosso café da manhã resumiu-se, portanto, a ovo mexido com um pão horroroso e gelado, junto com café com leite morno. Odeio comer mal em viagem! Grrrr!

Saímos e fomos desbravar a cidade, pois já estava tarde e começamos pela Praça Mulato, que fica numa linda rua de pedestres. Resolvemos entrar numa lojinha de artigos de design que ficava num prédio maravilhoso! Acessórios e roupas lindos de morrer nos impressionaram pelo estilo e preço. Acho que morar no Rio está distorcendo nossa percepção, porque eu e Isabela começamos a ficar enlouquecidas com todas aquelas coisas lindas custando a metade do preço, em média.

Depois da parada pras compras, resolvemos almoçar em frente, num restaurante simpático que oferecia um atraente menu do dia. Teríamos de comer rápido porque o walking tour que havíamos decidido fazer saía da La Moneda às 14h. Mas quem é que consegue ter pressa nas  férias?
Minha entrada foi um delicioso creme de alcachofras, enquanto que a Isabela escolheu uma salada. Ambas pedimos para prato principal um risoto com peixe empanado levíssimo. A sobremesa de ambas foi uma torta chamada de Trés Leches, bastante comum nos restaurantes que vimos. Na verdade, é como se fosse um recheio de pavê coberto por uma espuma cremosa. Divino, assim como os outros pratos. Curiosamente, ainda que despretensiosa, essa acabou sendo uma das melhores refeições que fizemos em Santiago.


Saímos às 13:55 já sabendo que seria muito difícil de pegarmos o tour. A garçonete nos orientou que pegássemos um táxi e assim fizemos. Ele nos deixou bem próximas à La Moneda, mas resolvemos relaxar, andar por nossa conta e tirar algumas fotos, pois poderíamos pegar o Free Tour que sairia da Plaza de Armas, às 15h.



Era um dia ensolarado e andávamos relativamente rápido. Estávamos com nossos casacos de pelo de alpaca e começamos a sentir muito calor. Naturalmente, tiramos os agasalhos e os guardamos nas bolsas. Isabela estava de camisa com mangas curtas e eu com uma regata longa. De repente, nos demos conta de uma situação muito esquisita. Todos – e eu digo TODOS mesmo: homens, mulheres e crianças – olhavam pra nós como se fôssemos ETs de Varginha e alguns chegavam a parar e se virar, nos acompanhando passar. Demoramos um tempo a entendermos o que estava acontecendo, quando finalmente nos demos conta de que eram as nossas roupas leves que estavam chamando atenção. Enquanto eu e Isabela estávamos de roupas leves, com os casacos pendurados, os santiaguinos andavam completamente encasacados com cachecóis, sobretudos, botas e gorros. Uma coisa esquisitíssima!
Quem diria que nós, que 48 horas antes tiritávamos de frio sob o céu do Atacama viraríamos atração nas ruas de Santiago por causa de umas camisetinhas de malha.
Quando chegamos à Plaza de Armas, demoramos um pouco a identificar o guia do Free Tour. Ficamos sentadinhas, tomando sol e um pouco incomodadas com os altos brados de um homem que pregava furiosamente no centro da praça. A pregação tinha altas performances, com o cara fazendo as vezes de Deus, falando com o chão com as mãos na cintura, onipotente, criticando as ações humanas. Fiquei acompanhando o desempenho do sujeito e Isabela meio que cochilando, até que, 10 minutos depois, percebemos um rapazinho em frente à Igreja, com um casaco vermelho, escrito Free Tour.
Fomos até lá e ele já se adiantou, apresentando-se como Felipe, dizendo que começaríamos em 15 minutos. Disse que o tour seria em Inglês e perguntou se tínhamos algum problema com o idioma, ao que eu e Isabela respondemos que não. Enquanto esperávamos, juntaram-se a nós um brasileiro de Belo Horizonte, chamado Tulio, um australiano chamado Dylan, um americano da California, cujo nome não me lembro e um chileno, que disse ser de Santiago e trabalhar com Turismo.
Felipe explicou o conceito do Free Tour, sobre o qual nossa amiga inglesa Lea já havia comentado com a Isabela, além de ela também ter lido a respeito nos folhetos disponíveis no nosso hostel. O passeio é todo feito andando, conduzido pelo guia, que para em locais estratégicos a fim de dar explicações de seus contextos culturais. Eles não cobram nada e você dá o que achar justo ao guia. Uma ideia muito interessante e que comprovamos ser muito divertida também.
Assim que Felipe começou a falar, constatamos o óbvio. Ele era um ator. Na verdade, excelente ator! Falava um Inglês fluente, mas, com um forte sotaque chileno, cheio de personalidade. As narrações das histórias de amor secreto entre os fundadores da cidade, mais as batalhas contra os Mapuches ganhavam atuações que nos faziam pensar que estávamos num espetáculo de teatro. Os relatos sobre o governo de Salvador Allende, o golpe militar e os 20 anos de ditadura sob o comando de Pinochet, até sua prisão e morte foram o ponto alto dessa narração envolvente. Aliás, vale aqui o comentário sobre como nos impressionou o engajamento político dos chilenos. Todos aqueles com quem tivemos alguma convivência nesse período mostraram ser especialmente articulados e de opiniões fortes nesse aspecto.
Com o Free Tour, começamos pelo Centro Histórico, seguimos pelos bairros de Lastarría, onde demos uma paradinha pra um Pisco Sour e continuamos pelo Parque Florestal e depois Bella Vista. Além do guia, nosso próprio grupo era bastante simpático, com todos trocando informações sobre o que já tinham experimentado no Chile. Apenas o sujeito local se mostrou um chato. Sacamos que ele aproveitava o evento pra tentar vender passeios aos turistas que participavam do tour. Foi a Isabela quem percebeu isso depois que ele ficou tentando convencê-la a fazer o tour na Bodega Concha y Toro, mesmo depois de ela explicar que não tínhamos interesse, pois iríamos conhecer dois vinhedos no Vale do Colchagua. Depois o vi tentando empurrar o mesmo passeio pro mineiro e pro australiano. Haja saco!








Terminamos o passeio em frente à casa de Pablo Neruda, a La Chascona. Cada uma de nós pagou 10 mil pesos mais do que justos ao nosso guia. Agradecemos muito ao Felipe, que sugeriu de escrever pra nós os nomes dos pratos típicos que havia nos indicado.
 Foram quase 4 horas de tour e estávamos exaustas. Pra variar, eu estava com fome e a Isabela ainda não. No caminho, passamos por uma feirinha que vendia um sanduíche comentado pelo Felipe. Era o Italiano, feito com salsicha, maionese e palta, o querido abacate dos chilenos que é usado em vários pratos salgados. Não tive dúvida e me rendi ao podrão versão chilena. Achei a parte da maionese um pouco pesada, mas o sanduíche era bem gostoso.



Eu e Isabela nos perdemos levemente durante a volta ao hostel, mas nada que algumas paradinhas pra informações não resolvessem. Às 19:30, estávamos de volta ao Andes Hostel para a terceira e baladeira parte do dia.
Conseguimos nos comunicar com a Julia e o Christian via Whatsapp e marcamos um encontro perto da estação de metrô Baquedano, que ficava um ponto depois da Bellas Artes. Essa última ficava na esquina do nosso hostel, de maneira que foi muito fácil nos locomovermos no organizado metrô chileno.
Ao nos encontrarmos, conhecemos as simpáticas Paula, irmã do Christian e Lulu. Essa última é uma jovem chinesa de 22 anos, que fez amizade com a família do Christian durante o período em que moraram em seu país. Ela atualmente estuda Ciências Contábeis em Santiago e pretende estudar também no Brasil, daqui a algum tempo. Seguimos andando juntos para o Bairro de Bella Vista com o objetivo de jantarmos e depois dançarmos Salsa e Cumbia, um ritmo local.
Tentamos parar pra comer em um dos restaurantes badalados que vimos no nosso tour, mas ele estava lotado. O Christian sugeriu um que disse ser menos bonito, mas de comida igualmente saborosa e pra lá fomos. Pedimos uma Chorrillana que é um prato enorme com carnes feitas na chapa, batatas e cebolas fritas, além de um ovo frito, bem no topo da montanha calórica. Pra coroar essa orgia gastronômica, pedi um Schopequeño, que de pequeño não tem nada, mas é o menor que é servido por lá.




Estava tudo uma delícia, mas de estômago forrado, começaram as primeiras baixas. Isabela preferiu retornar ao hostel, pois estava muito cansada. Eu fiquei curiosa pra conhecer a night chilena e fui com o grupo assistir a uma aula de Salsa seguida do show da banda La Moral Distraída.

Deixamos a Isa num táxi e seguimos andando pra casa de shows, que ficava quase na esquina. Não estava muito cheia naquele momento, mas o Christian disse que iria bombar na hora do show. Deixamos nossos casacos no guarda-volumes, nos sentamos em uma das salas e pedimos algumas bebidinhas.
Pedi que a Paula me ensinasse alguns passos de Salsa e ela me mostrou o básico. Lulu chegou a ter algumas aulas de Salsa e logo estava rodopiando lindamente com um rapaz. Julia também não fez feio, dançando com outro local. Eu estava doida pra dançar, mas fiquei com medo de passar vergonha, até que um corajoso se ofereceu pra dançar comigo. Eu expliquei que nunca tinha dançado aquilo, mas ele disse que se eu era brasileña, não tinha problema, pois tínhamos ritmo. Pffff... coitado...



O rapaz era esforçado e até que consegui esboçar alguns passos, mas eles cismam de rodopiar a gente e aí, compañero, rodopiou, dançou, quer dizer, pisou no pé. O rapaz disse se chamar Santiago – bem fácil de lembrar, eu diria – e tentou o papinho básico “nossa-como-as-brasileiras-são-todas-lindas-e-simpáticas-como-eu-adoro-o-brasil-samba-caipirinha-blablablá”, mas eu tive de interrompê-lo, pois precisava muito me concentrar em manter minha dignidade rodopiando. Disse da forma mais simpática possível “perdon, Santiago, pero o bailo, o hablo”. Ele riu e percebeu que daquele mato não ia sair perro. Acabada a música, retornei pro meu banquinho decidida a lá ficar até o início do show. 
Não demorou muito até que a banda entrasse e o show foi espetacular! Os caras tocavam muito e músicas super animadas. Cheguei a fazer vários videozinhos, mas são todos pesados demais pra postar aqui, infelizmente. Eu, Paula e Lulu dançamos misturadas ao público que se apinhava em frente à banda e, depois de algum tempo, nosso casal 20 se juntou a nós. Foi muito divertido e, mesmo passando das 2 da manhã de um dia super cheio, fiquei morrendo de pena quando o show acabou.


Voltei pro hostel e constatei o óbvio. Era absolutamente impossível postar qualquer coisa no blog. Entrei no quarto com cuidado pra não acordar a Isabela, tomei uma chuverada pelando de quente e desabei na cama!
Santiago é o máximo!

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