Nosso primeiro desayuno em Santiago foi decepcionante.
Apesar de o local reservado para as refeições no Andes Hostel ser super
simpático, não se pode dizer o mesmo das atendentes. Perguntei se havia como
esquentar mais leite e a moça fez um grunhido mal humorado. Foi a mesma reação
quando fui pegar ovo mexido e constatei que havia acabado também. Nosso café da manhã resumiu-se, portanto, a ovo mexido com um pão horroroso e gelado, junto
com café com leite morno. Odeio comer mal em viagem! Grrrr!
Saímos e fomos desbravar a cidade, pois já estava tarde e
começamos pela Praça Mulato, que fica numa linda rua de pedestres. Resolvemos
entrar numa lojinha de artigos de design que ficava num prédio maravilhoso! Acessórios e roupas
lindos de morrer nos impressionaram pelo estilo e preço. Acho que morar no Rio
está distorcendo nossa percepção, porque eu e Isabela começamos a ficar enlouquecidas com todas aquelas coisas lindas custando a metade do preço, em média.
Depois da parada pras compras, resolvemos almoçar em frente,
num restaurante simpático que oferecia um atraente menu do dia. Teríamos de
comer rápido porque o walking tour que havíamos decidido fazer saía da La
Moneda às 14h. Mas quem é que consegue ter pressa nas férias?
Minha entrada foi um delicioso creme de alcachofras,
enquanto que a Isabela escolheu uma salada. Ambas pedimos para prato principal
um risoto com peixe empanado levíssimo. A sobremesa de ambas foi uma torta
chamada de Trés Leches, bastante comum nos restaurantes que vimos. Na verdade,
é como se fosse um recheio de pavê coberto por uma espuma cremosa. Divino, assim
como os outros pratos. Curiosamente, ainda que despretensiosa, essa acabou
sendo uma das melhores refeições que fizemos em Santiago.
Saímos às 13:55 já sabendo que seria muito difícil de pegarmos
o tour. A garçonete nos orientou que pegássemos um táxi e assim fizemos. Ele
nos deixou bem próximas à La Moneda, mas resolvemos relaxar, andar por nossa
conta e tirar algumas fotos, pois poderíamos pegar o Free Tour que sairia da
Plaza de Armas, às 15h.
Era um dia ensolarado e andávamos relativamente rápido.
Estávamos com nossos casacos de pelo de alpaca e começamos a sentir muito
calor. Naturalmente, tiramos os agasalhos e os guardamos nas bolsas. Isabela
estava de camisa com mangas curtas e eu com uma regata longa. De repente, nos
demos conta de uma situação muito esquisita. Todos – e eu digo TODOS mesmo: homens,
mulheres e crianças – olhavam pra nós como se fôssemos ETs de Varginha e alguns
chegavam a parar e se virar, nos acompanhando passar. Demoramos um tempo a
entendermos o que estava acontecendo, quando finalmente nos demos conta de que
eram as nossas roupas leves que estavam chamando atenção. Enquanto eu e Isabela
estávamos de roupas leves, com os casacos pendurados, os santiaguinos andavam
completamente encasacados com cachecóis, sobretudos, botas e gorros. Uma coisa
esquisitíssima!
Quem diria que nós, que 48 horas antes tiritávamos de frio
sob o céu do Atacama viraríamos atração nas ruas de Santiago por causa de umas
camisetinhas de malha.
Quando chegamos à Plaza de Armas, demoramos um pouco a
identificar o guia do Free Tour. Ficamos sentadinhas, tomando sol e um pouco
incomodadas com os altos brados de um homem que pregava furiosamente no centro
da praça. A pregação tinha altas performances, com o cara fazendo as vezes de
Deus, falando com o chão com as mãos na cintura, onipotente, criticando as
ações humanas. Fiquei acompanhando o desempenho do sujeito e Isabela meio que
cochilando, até que, 10 minutos depois, percebemos um rapazinho em frente à
Igreja, com um casaco vermelho, escrito Free Tour.
Fomos até lá e ele já se adiantou, apresentando-se como
Felipe, dizendo que começaríamos em 15 minutos. Disse que o tour seria em
Inglês e perguntou se tínhamos algum problema com o idioma, ao que eu e Isabela
respondemos que não. Enquanto esperávamos, juntaram-se a nós um brasileiro de
Belo Horizonte, chamado Tulio, um australiano chamado Dylan, um americano da
California, cujo nome não me lembro e um chileno, que disse ser de Santiago e
trabalhar com Turismo.
Felipe explicou o conceito do Free Tour, sobre o qual nossa amiga
inglesa Lea já havia comentado com a Isabela, além de ela também ter lido a
respeito nos folhetos disponíveis no nosso hostel. O passeio é todo feito
andando, conduzido pelo guia, que para em locais estratégicos a fim de dar
explicações de seus contextos culturais. Eles não cobram nada e você dá o que
achar justo ao guia. Uma ideia muito interessante e que comprovamos ser muito
divertida também.
Assim que Felipe começou a falar, constatamos o óbvio. Ele
era um ator. Na verdade, excelente ator! Falava um Inglês fluente, mas, com um
forte sotaque chileno, cheio de personalidade. As narrações das histórias de
amor secreto entre os fundadores da cidade, mais as batalhas contra os Mapuches
ganhavam atuações que nos faziam pensar que estávamos num espetáculo de teatro.
Os relatos sobre o governo de Salvador Allende, o golpe militar e os 20 anos de
ditadura sob o comando de Pinochet, até sua prisão e morte foram o ponto alto
dessa narração envolvente. Aliás, vale aqui o comentário sobre como nos
impressionou o engajamento político dos chilenos. Todos aqueles com quem
tivemos alguma convivência nesse período mostraram ser especialmente
articulados e de opiniões fortes nesse aspecto.
Com o Free Tour, começamos pelo Centro Histórico, seguimos
pelos bairros de Lastarría, onde demos uma paradinha pra um Pisco Sour e continuamos
pelo Parque Florestal e depois Bella Vista. Além do guia, nosso próprio grupo
era bastante simpático, com todos trocando informações sobre o que já tinham
experimentado no Chile. Apenas o sujeito local se mostrou um chato. Sacamos que
ele aproveitava o evento pra tentar vender passeios aos turistas que
participavam do tour. Foi a Isabela quem percebeu isso depois que ele ficou
tentando convencê-la a fazer o tour na Bodega Concha y Toro, mesmo depois de
ela explicar que não tínhamos interesse, pois iríamos conhecer dois vinhedos no
Vale do Colchagua. Depois o vi tentando empurrar o mesmo passeio pro mineiro e
pro australiano. Haja saco!
Terminamos o passeio em frente à casa de Pablo Neruda, a La
Chascona. Cada uma de nós pagou 10 mil pesos mais do que justos ao nosso guia.
Agradecemos muito ao Felipe, que sugeriu de escrever pra nós os nomes dos
pratos típicos que havia nos indicado.
Foram quase 4 horas
de tour e estávamos exaustas. Pra variar, eu estava com fome e a Isabela ainda
não. No caminho, passamos por uma feirinha que vendia um sanduíche comentado
pelo Felipe. Era o Italiano, feito com salsicha, maionese e palta, o querido
abacate dos chilenos que é usado em vários pratos salgados. Não tive dúvida e
me rendi ao podrão versão chilena. Achei a parte da maionese um pouco pesada,
mas o sanduíche era bem gostoso.
Eu e Isabela nos perdemos levemente durante a volta ao
hostel, mas nada que algumas paradinhas pra informações não resolvessem. Às
19:30, estávamos de volta ao Andes Hostel para a terceira e baladeira parte do
dia.
Conseguimos nos comunicar com a Julia e o Christian via
Whatsapp e marcamos um encontro perto da estação de metrô Baquedano, que ficava
um ponto depois da Bellas Artes. Essa última ficava na esquina do nosso hostel,
de maneira que foi muito fácil nos locomovermos no organizado metrô chileno.
Ao nos encontrarmos, conhecemos as simpáticas Paula, irmã do
Christian e Lulu. Essa última é uma jovem chinesa de 22 anos, que fez amizade
com a família do Christian durante o período em que moraram em seu país. Ela
atualmente estuda Ciências Contábeis em Santiago e pretende estudar também no
Brasil, daqui a algum tempo. Seguimos andando juntos para o Bairro de Bella
Vista com o objetivo de jantarmos e depois dançarmos Salsa e Cumbia, um ritmo local.
Tentamos parar pra comer em um dos restaurantes badalados
que vimos no nosso tour, mas ele estava lotado. O Christian sugeriu um que
disse ser menos bonito, mas de comida igualmente saborosa e pra lá fomos.
Pedimos uma Chorrillana que é um prato enorme com carnes feitas na chapa, batatas e
cebolas fritas, além de um ovo frito, bem no topo da montanha calórica. Pra
coroar essa orgia gastronômica, pedi um Schopequeño, que de pequeño não tem
nada, mas é o menor que é servido por lá.
Estava tudo uma delícia, mas de estômago forrado, começaram
as primeiras baixas. Isabela preferiu retornar ao hostel, pois estava muito
cansada. Eu fiquei curiosa pra conhecer a night chilena e fui com o grupo
assistir a uma aula de Salsa seguida do show da banda La Moral Distraída.
Deixamos a Isa num táxi e seguimos andando pra casa de shows,
que ficava quase na esquina. Não estava muito cheia naquele momento, mas o
Christian disse que iria bombar na hora do show. Deixamos nossos casacos no
guarda-volumes, nos sentamos em uma das salas e pedimos algumas bebidinhas.
Pedi que a Paula me ensinasse alguns passos de Salsa e ela
me mostrou o básico. Lulu chegou a ter algumas aulas de Salsa e logo estava
rodopiando lindamente com um rapaz. Julia também não fez feio, dançando com
outro local. Eu estava doida pra dançar, mas fiquei com medo de passar vergonha,
até que um corajoso se ofereceu pra dançar comigo. Eu expliquei que nunca tinha
dançado aquilo, mas ele disse que se eu era brasileña, não tinha problema, pois
tínhamos ritmo. Pffff... coitado...
O rapaz era esforçado e até que consegui esboçar alguns
passos, mas eles cismam de rodopiar a gente e aí, compañero, rodopiou, dançou,
quer dizer, pisou no pé. O rapaz disse se chamar Santiago – bem fácil de
lembrar, eu diria – e tentou o papinho básico “nossa-como-as-brasileiras-são-todas-lindas-e-simpáticas-como-eu-adoro-o-brasil-samba-caipirinha-blablablá”,
mas eu tive de interrompê-lo, pois precisava muito me concentrar em manter
minha dignidade rodopiando. Disse da forma mais simpática possível “perdon,
Santiago, pero o bailo, o hablo”. Ele riu e percebeu que daquele mato não ia
sair perro. Acabada a música, retornei pro meu banquinho decidida a lá ficar
até o início do show.
Não demorou muito até que a banda entrasse e o show foi espetacular! Os caras tocavam muito e músicas super animadas. Cheguei a fazer vários videozinhos, mas são todos pesados demais pra postar aqui, infelizmente. Eu, Paula e Lulu dançamos misturadas ao público que se apinhava em frente à banda e, depois de algum tempo, nosso casal 20 se juntou a nós. Foi muito divertido e, mesmo passando das 2 da manhã de um dia super cheio, fiquei morrendo de pena quando o show acabou.
Voltei pro hostel e constatei o óbvio. Era absolutamente impossível postar qualquer coisa no blog. Entrei no quarto com cuidado pra não acordar a Isabela, tomei uma chuverada pelando de quente e desabei na cama!
Santiago é o máximo!



















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