sexta-feira, 1 de junho de 2012

Décimo dia - 31 de maio: cerros, poesia e música

Diante da péssima experiência de desayuno no dia anterior, resolvemos tomar café num dos inúmeros restaurantes ao longo do caminho e paramos num árabe na rua Merced; bairro de Lastarría. Cada uma peidu um café com creme e uma torta de maçã. Junto com a água deu um total de 9000 pesos e o sujeito nos apresentou a conta sem discriminar os valores por itens. Ficamos meio incomodadas, mas ao conferirmos no menu que estava na parede, vimos era mesmo caro. Grande furada porque nem estava tão bom assim.

Resolvemos começar a visita pelo Cerro Santa Lucia, que fica bem perto da rua Merced e do próprio Andes Hostel. Lindo, totalmente arborizado e com vários patamares adornados por pequenas praças e monumentos. O outono por aqui é muito bonito e bem caracterizado com as folhas douradas que enfeitam a cidade em seus parques e ruas arborizadas. 



Assim como no Atacama, os perros de Santiago dominam a cidade. Eles estão em todo lugar e não se parecem com os cães de rua brasileiros. Quisera parecessem. Aqui, eles são enormes, todos muito gordinhos e preguiçosos. Durante o Free Tour do dia anterior, Felipe havia explicado que eles são cuidados pela comunidade. Chegou a mostrar-nos casinhas de cachorros espalhadas pelo Parque Florestal.
No Atacama, eles pareciam estar praticamente hibernando, pois, fora o atlético Garú, era difícil estarem acordados. Aqui em Santiago, já são um pouco mais ativos, mas também é comum vê-los estirados nas calçadas, esparramados numa nesga de sol, aquecendo-se. São os donos do pedaço!
Quando fomos visitar o Cerro Santa Lucia, aconteceu uma coisa muito engraçada. Eu e Isabela estávamos no patamar de um castelo que estava fechado, aproveitando os cenários de ferro e folhas douradas para belas fotos, um a um, vieram chegando cerca de 5 cachorros. Eles começaram a nos rodear de um jeito muito pacífico, mas muito perto também.
Seguimos andando e eles foram conosco. Achamos que iriam nos ultrapassar, mas que nada. Era só pararmos que eles paravam também. De vez em quando, um implicava com outro, deixando-nos na dúvida sobre qual deles seria o alfa, mas era certo que nos tornaram parte da matilha durante um bom tempo.



Quando finalmente chegamos no topo, morremos de rir. Havia uma escultura de um cachorro. Nada mais justo do que essa homenagem a um animal tão adorado pelos santiaguinos. Era como se nossos amigos peludos estivessem nos escoltando ao seu altar de adoração e, assim que chegamos na estátua, os cães se dispersaram. Nesse momento, pudemos finalmente andar com mais desenvoltura pelo pequeno parque.


Tinha uma vista bem bonita pra cidade e, além do cachorro, outras esculturas bacanas. Uma delas, mostrava um índio que acreditamos ser mapuche no topo de uma pedra. Rendeu algumas fotos interessantes.



Descendo pelo outro lado, ficava um chafariz bem lindo com uma escultura de Netuno. Alguém havia me dito que era inspirado na Fontana di Trevi. Não sei se é verdade, mas fazia algum sentido.


Tínhamos a intenção de visitar o Museu de Artes Visuais, que ficava na Praça Mulato e achamos super interessante de longe. Mas a hora já estava adiantada pro almoço que marcamos com a Julia e o Christian, por isso, seguimos em direção ao Bairro de Bella Vista, para nos encontrarmos no restaurante Galindo.
O Felipe, nosso Free Guide, já tinha indicado o Galindo como um restaurante interessante pra provarmos comidas típicas. A intenção foi ter jantado nele no dia anterior, mas o lugar estava lotado.
Não tivemos muita sorte, pois pegamos uma garçonete muito esquisita. Era extremamente antipática e ficou incomodada quando sentamos numa mesa de quatro, explicando que esperávamos por mais duas pessoas. Como a Júlia e o Christian demoraram um pouco a chegar, ela vinha o tempo todo perguntar “viéne alguém más?”. Bem, isso ou algo parecido. Respondíamos que sim, mas ela demonstrava claramente seu descontentamento. Logo em seguida, fazia uma careta que rasgava o rosto todo na tentativa de um sorriso. Mais parecia uma carranca mostrando os dentes. Medo!
Como prato, escolhi um Parotos con Longanizas que não curti muito. Também pedi uma taça de vinho da casa que não foi nada legal. Enfim, terminado o almoço, tratamos de sair rapidinho de lá e fomos ao Cerro São Cristóbal, bem próximo à La Sebastiana, casa do Pablo Neruda que pretendíamos visitar depois do Cerro.

Subimos nós quatro no funicular e seguimos acompanhados por um... adivinhem... cachorrinho furioso, que corria na escada lateral latindo furiosamente. Andamos até a capela e subimos até o topo aonde há uma grande estátua de Nossa Senhora da Conceição.



Logo abaixo da escadaria que levava à santa, havia um local com muitas velas e placas de agradecimento. Ficamos lendo, eu e Isabela, e algumas eram emocionantes. Numa delas, um senhor que assinava dizendo ter 53 anos de idade agradecia as graças concedidas desde os 33, quando ele teria ido pela primeira vez pedir por sua família.
Conseguimos tirar algumas fotos interessantes da Cordilheira, mas o famoso smog de Santiago atrapalhou bastante a visibilidade. Christian explicou como a Cordilheira dificulta a circulação dos ventos, acumulando poluição na atmosfera da cidade. Disse que se chovesse, melhoraria bastante, mas essa chuva, por si só, é muito tóxica. É a chamada chuva ácida.



Descendo do Cerro, eu e Isabela conseguimos uma visita guiada no La Chascona. Essa é uma das 3 casas de Pablo Neruda. As outras duas ficam em Valparaiso, que também pretendemos visitar e Isla Negra. O nome “La Chascona” vem de algo parecido com “descabelada”, que era o apelido da amante de Neruda, Matilde Urrutia.
Nossa visita guiada foi praticamente particular e nosso guia parecia um autêntico índio Mapuche. Ele nos contou que Neruda e Matilde tiveram um romance secreto – ou tão secreto quanto viver em uma casa daquelas em Santiago pode ter sido – durante 5 anos, até que ele se separou de sua segunda mulher e casou-se com sua amante. Neruda era um conhecido colecionador de artigos peculiares e alguns até bem estranhos. As três bonecas francesas no banheiro, com as cabeças viradas pra porta, por exemplo, me causaram arrepios!

Outra característica bem marcante e talvez a mais conhecida das moradias de Neruda eram suas referências visuais com navios e o mar, de uma forma geral. Segundo nosso guia, essa adoração inspiradora de Neruda era totalmente contemplativa, pois ele mesmo não sabia nadar. Saí de lá achando o lugar e suas histórias extremamente interessantes, extremamente estimulada a ler seus poemas.


Voltamos ao Andes Hostel sem nos perder, finalmente! Arrumamo-nos rapidinho, pois teríamos um jantar na casa do Christian, com sua mãe, irmãs e a Júlia. Depois, alguns amigos dele iriam fazer um esquenta por lá, até a hora do show da banda La Comoccíón, que veríamos mais tarde.
O jantar foi uma delícia, com um frango preparado pela Paula, irmã do Christian. De sobremesa, serviram-nos um biscoito delicioso em forma de charuto, com recheio de doce de leite e envolto em chocolate.


Mais uma vez, impressionou-nos as conversas sempre recheadas de alusões ao panorama político do Chile. Mas isso tudo com uma leveza incrível, pois a família do Christian é tão simpática como ele.

A galera foi chegando e partimos pro show. Isabela pediu arrego novamente e ficou no Hostel, mas, confesso que foi ela que mandou bem. Eu estava mortinha com farofa de cansada e não via como fosse conseguir durar muito ao longo da noite. Acabei não conseguindo ficar até a banda principal entrar. Ao fim da primeira banda, despedi-me só da Júlia e saí à francesa pra não quebrar o ritmo da galera.


Chegando no Hostel, aconteceu uma coisa muito engraçada. Assim que eu entrei no quarto, a Isabela se assustou e deu um grito. Eu, que não fico atrás em matéria de susto, sotei dois berros. Caí na cama chorando de rir com a cena e achando que viria alguém do albergue checar o que havia acontecido, mas nada! Devem ter pensado “se veio do quarto de brasileños, tá tranquilo”. Rs.

Nenhum comentário:

Postar um comentário